Ressurreição Marina Bandeira

Nascimento: Rio de Janeiro:  22-12-1924 – Ressurreição: Rio de Janeiro: 14-05-2019

É com sentido pesar e arraigada esperança pascal, que comunicamos a ressurreição de Marina Bandeira na manhã do dia 14 de maio de 2019.

Rendemos-lhe um preito de respeito e gratidão em nome do CEHILA-Brasil (Centro de Estudos de História da Igreja na América Latina). Marina esteve entre seus sócios fundadores, no ano de 1980.

Antes disso, já se destacara à frente da Comissão de Publicidade na preparação e realização do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro (1955), nas iniciativas sociais de Dom Helder Camara dentre as quais, o Banco da Providência do qual foi presidente.

Colaborou de perto com seu amigo Dom José Távora e com Dom Helder nos trabalhos para o Concilio Vaticano II.

Participou da fundação do MEB (Movimento de Educação de Base), iniciativa da CNBB e pertenceu à sua direção.

Foi secretaria da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

Após a redemocratização do país foi convidada e aceitou assumir a presidência da FUNABEM (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor) para colocá-la a serviço da recuperação dos jovens infratores.

Sua dileta e fiel amiga, Maria Helena Arrochellas Correa, diretora do Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade – CAALL tornou-se depositária de muitos de seus papeis e arquivos pessoais e institucionais confiados ainda em vida ao CAALL, de modo especial, toda a rica documentação da Comissão Brasileira Justiça e Paz durante o período em que Marina foi sua secretária e o reitor da UCAM (Universidade Candido Mendes), Dr. Candido Mendes, seu presidente.

Editou na Coleção Presença de Alceu do CAALL os livros de Marina Bandeira A Igreja Católica na Virada da Questão Social (1930-1964) e Vigília e Testemunho, com suas “lembranças”. Sua Apresentação vai reproduzida aqui abaixo. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pe. José Oscar Beozzo

Coordenador geral do CESEEP – Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular

Juntamente com Marina, um dos sócios fundadores do CEHILA- Brasil

 

APRESENTAÇÃO

O livro, intitulado singelamente como “Lembranças”, esconde na realidade um tesouro de reminiscências que ultrapassam a vida pessoal da autora, Marina Bandeira, e nos levam a eventos da maior relevância para a vida do país e da Igreja católica, aqui no Brasil, e alhures.

Lê-se o texto como uma novela, bem escrita e cheia de vivacidade, em que o personagem principal recolhe-se aos bastidores, fora das luzes da ribalta, e deixa que outros ocupem a frente e o centro do palco, sem deixar de contracenar, comunicando seus sentimentos, reações e opiniões que, de maneira saborosa, ponteiam o relato.

Jovem, ainda, Marina foi trazida por seu amigo Dom José Távora, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, para a Comissão de Publicidade do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, em 1955 . Seu conhecimento do inglês e a experiência de trabalho jornalístico, adquiridos como locutora e tradutora da BBC de Londres, foram perfeitos, neste evento de caráter internacional. Ali, conheceu dom Helder Camara, na época arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro e secretário geral da CNBB. Dali para frente, sua vida esteve entrelaçada a pessoas, acontecimentos e iniciativas que marcaram a história contemporânea do Brasil.

Logo depois da II Guerra Mundial, um livro marcou época nos círculos intelectuais dentro e fora da França, tendo logo conhecido uma tradução para o português pela Livraria Agir, em 1947: Les grandes amitiés, “As grandes amizades ” de Raïssa Maritain, judia russa convertida ao catolicismo e esposa do filósofo Jacques Maritain. O livro não teria nada de excepcional se traçasse apenas a trajetória de duas inteligências brilhantes ou ainda se relatasse somente os caminhos que os levaram à conversão à fé cristã. Seu segredo residia bem mais na fidelidade aos amigos e às amigas, artistas, filósofos, escritores, teólogos que encontravam na sua casa um centro de vida e alimento espiritual, em que o conhecimento vinha sempre permeado pelo amor e pela afeição.

O mesmo se aplica a Marina que, nas lides de preparação para o Congresso Eucarístico, ligou-se em profunda e duradoura amizade com Maria Luiza Amarante que a acompanhou passo a passo na feitura desse seu livro de “Lembranças” e que, infelizmente, nos deixou sem ver o livro publicado. Pelas mãos de Maria Luiza, Aglaia Peixoto, Nair Cruz de Oliveira ingressou Marina no grupo que se reunia semanalmente na casa de Virginia Côrtes de Lacerda, professora de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com o Pe. Helder Camara. Depois de nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro e secretário da CNBB, em 1952, continuou se reunindo com o grupo, que o seguia chamando de Pe. Helder ou carinhosamente de “Dom”.

Deste modo, tornou-se Marina, junto com esse grupo de amigas e amigos, uma das destinatárias, como integrante da Família São Joaquim, apelidada depois Mecejanense, das cartas que Dom Helder escreveu a cada madrugada do Concílio Vaticano II, a partir de sua abertura por João XXIII na manhã de 11 de outubro de 1962 até seu encerramento a 08 de dezembro de 1965 .
Lendo-se as “Lembranças”, as Circulares conciliares , inter-conciliares e pós-conciliares de Dom Helder, as Cartas do Pai de Alceu Amoroso Lima e mais recentemente o Diário de um ano de trevas do mesmo Alceu Amoroso Lima podem se entrecruzar informações, acontecimentos e descobrir os laços de intensa amizade e até mesmo intimidade que uniam essas pessoas em torno de um propósito comum de serviço à Igreja e ao mundo.

Marina está sempre muito presente nessas circulares de Dom Helder seja para enviar-lhe recados para que corra atrás disto ou daquilo, o que mostra bem a confiança na sua fidelidade e eficiência, seja simplesmente para anunciar em tom alegre sua chegada a Roma:
“Hoje é festa de Cristo Rei. Ele que nos perdoe o sentido triunfalista da ideia da festa… Se Deus quiser, chegarão hoje Marina e Veroska!…” .

No dia seguinte, escreve Dom Helder:
“6. Chegaram em paz e até antes da hora Marina e Veroska . Lília teve a delicadeza de preparar mesa especial (a do Cardeal Ruffini, que almoçou fora), para as 3 brasileirinhas, o Eu (o amigo de Marina, Dom José Távora, assim apelidado por Dom Helder) e eu… Matamos um tanto as saudades” .
Poucos dias depois volta Dom Helder a noticiar em suas Circulares:
“5. Enquanto isto, Marina e Veroska se espalhavam. Conseguiram de tal modo prestígio junto aos europeus:
• que eles desejam que a UNDA latino-americana ajude a reformar e refundir a UNDA norte-americana” .
A notícia seguinte versava sobre o Movimento de Educação de Base (MEB):
“5. O MEB teve uma grande tarde. Após a Plenária e a Santa Missa… o Eu – ajudado poderosamente pela dupla Marina – Veroska – quebrou o gelo, venceu as resistências, deixou muito bem o Movimento. 2a feira, se Deus quiser, o trabalho se consolidará” .

Marina esteve à frente de iniciativas chaves da Igreja do Brasil, como o MEB, da qual foi secretaria geral, da UNDA, da qual foi coordenadora da América Latina e ainda da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

Quando o prof. Candido Mendes assumiu a secretaria geral da recém-fundada Comissão Brasileira de Justiça e Paz, quis que Marina fosse secretária geral adjunta, função que desempenhou ao longo de todos os difíceis anos da ditadura militar do Brasil, com competência e diligência. De 1971 até 1995, quando a sede da Comissão foi transferida para Brasília, Marina de maneira inteligente, discreta e eficiente secundou, apoiou e alimentou as manifestações e a face mais pública e visível da Comissão encarnada por seu secretário, Candido Mendes. Cuidou da difícil tarefa de receber, escutar, animar e encaminhar perseguidos, injustiçados, familiares de presos e desaparecidos que buscavam o socorro da Comissão.

Outro capítulo da rica e movimentada trajetória de Marina foi seu ingresso na Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina – CEHILA. Mesmo sem ser historiadora de profissão, resolveu estruturar sua contribuição sobre o período de 1930 a 1964, a partir de sua própria experiência e do extenso conhecimento que possuía da Ação Católica, do MEB, da CNBB, de suas responsabilidades na UNDA. Como mulher e leiga trouxe para os trabalhos da Comissão um olhar rico e diferenciado, nem sempre bem compreendido. Seu estudo preparado para a CEHILA saiu publicado só duas décadas mais tarde pela EDUCAM (Editora da Universidade Candido Mendes) na Coleção “Presença de Alceu” organizada pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade/CAAL, com o título A Igreja Católica na virada da questão social (1930-1964). No prefácio escrito pela professora Maria Yedda Leite Linhares (1921-2011), catedrática de História da UFRJ, o livro foi saudado como contribuição

impar e original para a história contemporânea do Brasil.
O livro “Memórias” é, portanto o segundo livro de Marina Bandeira que sai pela Coleção “Presença de Alceu”.
Fase inteiramente nova na vida de Marina e certamente das mais significativas para a vida pública do país foi sua passagem pela presidência da Fundação Nacional do Bem-estar do Menor – FUNABEM. Convidada pelo primeiro governo civil depois dos vinte e um anos de governos militares, a assumir a presidência, cobiçada por todos os partidos políticos, recusou de início. Acabou, depois aceitando o encargo. Esse “grande abacaxi”, como honestamente reconheceram suas melhores amigas e familiares, Marina o assumiu como sua contribuição pessoal para a redemocratização do país e como missão em relação à grande dívida social do país em relação à sua juventude, em especial a mais pobre, abandonada e incompreendida.

A instituição que assumiu em 1986, subordinada ao Ministério da Previdência, foi depois jogada de um ministério para o outro e estava loteada entre partidos políticos e apaniguados que nada faziam. Com Marina, o longo histórico de violência e descrédito ganhou outro perfil e conquistou respeito e credibilidade. Pela seriedade e têmpera de caráter sobreviveu a vários ministros, permanecendo na presidência, com “carta branca” para atuar, demitir e contratar, o que só se tornou realidade por seu destemor e persistência com inovou e moralizou o órgão, colocando-o a serviço das crianças, adolescentes e jovens desamparados ou “infratores”, com o olhar posto no seu futuro e recuperação. Marina esteve na raiz das propostas que levaram à aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Viu, porém, falharem suas tentativas para se repensar a relação tão fecunda entre educação e trabalho, criando-se um estatuto do “aprendiz” que permitiria ao jovem ainda menor, uma educação pelo trabalho e sua profissionalização. Um dos obstáculos era o receio de que se reabrisse uma brecha na difícil luta contra a exploração do trabalho infantil tão arraigada no país, mas também a inércia dos órgãos públicos responsáveis.

A atuação de Marina estendeu-se aos juízes, às escolas e às universidades, tentando granjear apoios para projetos como o da desativação das unidades de internamento dos menores, trocando-as pelo regime semi-aberto em que retornavam às suas casas para dormir; como o esforço para devolver os jovens para suas cidades de origem, descentralizando as unidades da FUNABEM localizadas quase sempre nas capitais. Seu carinho maior, entretanto, foram para o Projeto Rural, as Escolas-Fazenda em Viçosa, MG, com o apoio das Faculdades de Agronomia e Zootecnica da Universidade Federal, em Caxambu, MG, em convênio com a EMATER, experiências que buscou estender para outros lugares do país. Tentou transformar a grande área do Quintino no Rio de Janeiro, em centro de referência nacional com oficinas profissionalizantes e outros serviços.

Como a mudança do governo Sarney para o de Collor de Mello entregou sua demissão. Recebeu geral aplauso e reconhecimento pelo “milagre” que operara nessa área tão desacreditada e de imagem tão deteriorada na opinião pública. Marina soube reerguer a instituição e colher merecido reconhecimento ao introduzir padrões de lisura na escrupulosa destinação dos recursos públicos ao trazer pessoas imbuídas como ela a mesma paixão e dedicação em servir às crianças e jovens e ao país, na linha do poema de Fernando Pessoa, evocado em sua posse e relembrado na sua despedida:
“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.”

Mal terminara Marina essa exigente passagem pela administração pública foi instada a reassumir suas funções na Comissão Brasileira Justiça e Paz, o que o fez imediatamente, com o mesma paixão e empenho, características de tudo o que abraçou em sua vida.

Em 1992, foi convocada para uma reunião no Banco da Providência, uma das tantas iniciativas de Dom Helder, para tratar da situação da Comunidade de Emaús. A obra nascera ainda em tempos de Dom Helder, sob inspiração do Abbé Pierre, voltada para moradores de rua. Encontrava em crise com as prolongadas ausências, por motivo de doença, do seu responsável desde 1962, Jean Yves Olichon. Um mês depois, Marina precisou acudir à noite à Comunidade, sob ameaça de greve e levante dos “comunitários”, por falta de pagamento e comida. Saiu de lá responsável pela Comunidade, à cuja frente permaneceu por dez anos!

Só deixou Emaús, no dia em que amanheceu com uma paralisia facial, indo assim mesmo ao seu local de trabalho, mas tendo que retirar-se para prolongado tratamento.

Daí para frente, para além da família e do círculo de amigos e amigas, o Grupo de Trabalho Alceu Amoroso Lima tornou-se seu “ninho”, mas também seu espaço de irradiação e atuação pública.

Conclui suas “Lembranças” com esta afirmação, que bem ilustra esta fase de sua vida de meditação e recolhimento e ao mesmo tempo aberta, como sempre, para seguir sonhando e para empreender novas aventuras:
“Na minha atual vida tão caseira, o Centro Alceu é a minha Academia”.

Maria Helena Arrochellas Correa
Em sentida e carinhosa memória de Marina Bandeira.
Petrópolis. 14-05-2019

2019-05-16T15:20:24-03:00

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