No dia 10 de julho, o CESEEP, a partir do Curso Latino-Americano de Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso, em parceria com diversas organizações e comunidades religiosas, realizou a Vigília Inter-religiosa 2026, com o tema “Povos atravessados: migrações, guerras e crises socioambientais”. Inspirada na sabedoria do Budismo Shin: “A Luz da Compaixão não distingue povos, fronteiras ou religiões”. A celebração reuniu diferentes tradições espirituais em um momento de oração, silêncio, cantos e compromisso com a vida. A vigília aconteceu no Centro MAGIS Anchietanum em São Paulo.

Vivemos um tempo em que milhões de pessoas são obrigadas a deixar suas casas em razão de guerras, perseguições, violência, violações de direitos humanos e da intensificação das crises socioambientais. Segundo dados da ACNUR, até junho de 2025 mais de 117,3 milhões de pessoas haviam sido forçadas ao deslocamento em todo o mundo. Embora parte dessa população tenha conseguido retornar aos seus territórios, muitos retornos ocorreram em condições precárias, para regiões onde a insegurança permanece e o acesso a serviços básicos continua extremamente limitado.
No Brasil, esse cenário também se faz presente. Em março de 2026, havia 13.962 indígenas refugiados e migrantes, dos quais 2.027 eram pessoas reconhecidas como refugiadas, 5.516 solicitantes de refúgio e 6.418 possuíam outras formas de documentação migratória. A maioria pertence ao povo Warao (62,51%), seguida pelos povos Pemon/Taurepang (30,17%), Kariña (3,47%), Eñepá (2,28%) e outros povos indígenas (1,57%). Esses dados revelam a profunda dimensão humana dos deslocamentos forçados e reforçam a urgência de fortalecer redes de acolhida, solidariedade e defesa dos direitos das pessoas migrantes e refugiadas. (ACNUR)
A vigília contou com a participação de representantes de diferentes tradições cristãs como metodistas, batistas, católicas e luteranas entre outros, de comunidades de matriz afro-brasileira, de tradições budistas Soto Zen e Jōdo Shinshū, de parentes dos povos indígenas Pankararu, Fulni-ô e Guarani de imigrantes e refugiadas do Congo e Angola, acolhidos pela Casa de Assis, fortalecendo um verdadeiro espaço de encontro entre espiritualidades diversas.


A celebração teve início com um poema e um canto guarani e um profundo momento de silêncio conduzido pela tradição Zen Budista, acompanhado pelo gesto simbólico do barro. O barro recordou nossa origem comum, nossa fragilidade compartilhada e nossa pertença à mesma humanidade. Essa experiência dialogou com o itã de Nanã, que narra como a orixá mais antiga moldou os corpos humanos a partir do barro primordial, ensinando que a vida nasce da paciência, do cuidado e do tempo da maturação.

Em seguida, vivemos um emocionante toré multiétnico, conduzido por nossos parentes indígenas. Marcados pelo barro, reafirmamos que somos um só corpo, formado pela diversidade dos povos, culturas e espiritualidades. Na tradição do Budismo Shin, uma luz foi acesa como sinal da compaixão que atravessa todas as fronteiras. Juntas e juntos repetimos, como um mantra: “Compaixão. Compaixão. Compaixão.” Já no momento da espiritualidade cristã ecumênica, elevamos nossas vozes na Oração de São Francisco, reafirmando o compromisso das comunidades de fé com a paz, a justiça e a reconciliação.

A vigília foi encerrada com uma grande roda de dança conduzida por nossas companheiras imigrantes e refugiadas. Na dança, na oração, no silêncio e na celebração, reafirmamos que migrar é um direito humano e que nenhuma pessoa deve ser privada da possibilidade de viver com dignidade. Também reafirmamos que acolher é um compromisso espiritual e ético compartilhado pelas diferentes tradições religiosas.


Agradecemos a todas as pessoas, comunidades e organizações que participaram da construção deste momento de espiritualidade, diálogo e compromisso com a vida. Diante das múltiplas formas de violência e deslocamento forçado que marcam nosso tempo, seguimos fortalecendo uma cultura da acolhida. Abrir as portas, escutar, cuidar e caminhar ao lado de quem migra também é uma forma concreta de viver a fé e construir um mundo onde todas as pessoas possam viver com dignidade.
Organizações parceiras:
Sefras Ação Social Franciscana
Casa de Assis
Centro MAGIS Anchietanum
Mosteiro Zazen Budista Therigatha
Rainbow Sangha
Templo Nambei Honganji
Transformative Ecumenism Movement
KOINONIA Presença Ecumênica
Fotografias: Guilherme Freitas



