Com o tema “Ecumenismo Transformador e a Luta pela Terra: Desafios e Horizontes”, a 37ª edição do Curso Latino-Americano de Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso reuniu participantes do Brasil, Peru, Cuba e República Dominicana, de diferentes tradições cristãs, entre elas as Igrejas Luterana, Metodista, Católica Romana, Batista, Pentecostal e Presbiteriana. Durante quinze dias, o grupo compartilhou estudos, vivências, celebrações e visitas, fortalecendo um ecumenismo comprometido com a justiça, os direitos dos povos e o cuidado com a terra.
Promovido pelo CESEEP, o curso foi realizado como Curso de Extensão Universitária em parceria com as Faculdades EST, por meio do Programa de Gênero e Religião. Nesta edição, contou também com a parceria do Centro Memorial Martin Luther King Jr. (CMLK), de Cuba, e do Transformative Ecumenism Movement (TEM), ampliando o diálogo e a construção coletiva entre diferentes experiências ecumênicas da América Latina e do Caribe.
O Curso Latino-Americano de Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso é coordenado por Angelica Tostes (CESEEP), e em 2026 teve com o apoio da equipe de coordenação colegiada formada por Maria Betânia Claudino (CESEEP) e Priscilla dos Reis Ribeiro, além de ter contato com a equipe do CESEEP: Juan, Henrique, Nice, Diogo e Sônia.
A metodologia do curso é inspirada na Educação Popular, compreendendo que todas as pessoas ensinam e aprendem no processo formativo. Os conteúdos dialogam com as experiências de vida das pessoas participantes, articulando estudo, espiritualidade, convivência e prática, sempre em diálogo com a realidade latino-americana. A programação foi organizada em cinco movimentos, pensados como uma espiral do conhecimento, em que cada etapa retoma e aprofunda a anterior, integrando reflexão, experiência e compromisso com a transformação da realidade.

Primeiro movimento – Corpo-Território: O primeiro movimento do curso foi dedicado ao reconhecimento do corpo como território de vida, memória, espiritualidade e resistência. A abertura contou com Maria Maranhão e João Mário, artistas populares da caminhada, que conduziram uma mística integrando as sementes da terra, os saberes dos povos e os sonhos que desejávamos cultivar ao longo desses quinze dias de formação. Por meio de cantos, danças, símbolos e dinâmicas inspiradas na Educação Popular, o grupo pôde se conhecer, fortalecer vínculos e reconhecer a diversidade de histórias, culturas e igrejas presentes no curso. Em seguida, Silvia Regina, diretora do Departamento Ecumênico de Investigação (DEI), da Costa Rica, conduziu uma análise de conjuntura construída de forma participativa, partindo da pergunta geradora: “Quais comunidades eu habito e quais comunidades me habitam?”. A partir das experiências trazidas pelas pessoas participantes, foi possível refletir sobre os desafios vividos nos diferentes territórios da América Latina e do Caribe, utilizando quatro chaves de leitura da realidade: visibilizar, problematizar, tomar consciência e transformar.


Segundo movimento – Ecumenismo(s): O segundo movimento foi dedicado aos diferentes sentidos e expressões do ecumenismo. Para abrir essa etapa, a teóloga, pastora e ativista ecumênica Romi Bencke propôs um exercício de memória e esperança, convidando cada pessoa a escrever uma carta a partir das perguntas: “Quando percebi que há diversidade no mundo?” e “Que sonhos quero para o futuro?”. A provocação nos lembrou que existem muitas definições sobre o ecumenismo, mas que elas só fazem sentido quando atravessam nossos corpos, nossas histórias e nossas experiências de fé. Ao longo de dois dias, percorremos a história do movimento ecumênico em âmbito global e latino-americano, compreendendo como, em Nuestra América, o ecumenismo foi sendo construído em estreita relação com a defesa da democracia, dos direitos humanos e das lutas populares. Mais do que estudar o ecumenismo, buscamos vivê-lo na prática. Ivone Gebara também colaborou com uma assessoria sobre repensar o ecumenismo na atualidade, como podemos ir além das institucionalidades ecumênicas e realmente construir um ecumenismo vivo e anti-patriarca. O grupo visitou a Catedral Metropolitana Ortodoxa Antioquina de São Paulo e a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Paróquia da Santa Cruz, onde participou das celebrações e pôde conhecer diferentes tradições, espiritualidades e formas de viver a fé cristã.


Terceiro movimento – Lutas pela Terra: Com qual lente vemos a realidade? Foi com essa pergunta que Magno Luiz Garcia, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), iniciou esse terceiro movimento. Para compreender os conflitos em torno da terra e os desafios do tempo presente, fomos convidados a olhar a realidade a partir de um tripé de análise: ideologia, política e economia. Mais do que um exercício teórico, esse foi um convite para pensar o ecumenismo comprometido com a transformação social, compreendendo que a leitura da realidade precisa partir da vida concreta dos povos e não apenas dos nossos desejos. Ao longo das assessorias, refletimos sobre a crise global marcada pelo avanço do imperialismo, do neofascismo e do modelo econômico que concentra terra, riqueza e poder. Também conhecemos os dados do Caderno de Conflitos no Campo, publicado anualmente pela CPT, que revela como a luta pela terra permanece atual e continua sendo marcada pela violência contra povos indígenas, comunidades tradicionais, camponeses e trabalhadores e trabalhadoras rurais que resistem ao avanço do agronegócio, da mineração e da grilagem.
Esse movimento também foi marcado por duas importantes experiências junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A primeira aconteceu na Escola de Agroecologia Paulo Kageyama, onde conhecemos a trajetória do movimento, sua proposta de Reforma Agrária Popular e a agroecologia como prática de cuidado com a terra e produção de alimentos saudáveis. Em mutirão, participamos do plantio de um canteiro em Sistema Agroflorestal (SAF), experimentando na prática uma forma de cultivo baseada na diversidade, na cooperação e no equilíbrio com a natureza. A segunda vivência foi no Acampamento Marielle Vive, onde fomos acolhidos pelas famílias acampadas e pudemos conhecer de perto a organização coletiva do MST, os desafios da conquista da terra e a construção cotidiana de uma comunidade baseada na solidariedade, na formação política e na defesa da vida.


Quarto movimento – Trabalho de Base: Como fortalecer a atuação em nossas comunidades, igrejas e movimentos? Essa foi a pergunta que orientou o quarto movimento do curso. Com a assessoria de Thalita Rocha, do CEBI-MG, refletimos sobre como ler a Bíblia a partir da realidade e da vida do povo. A Leitura Popular da Bíblia nos recorda que as Escrituras estão a serviço da vida e que o “popular” não é apenas um público, mas uma perspectiva, uma dimensão de classe a partir da qual interpretamos os textos bíblicos. Utilizando elementos do método histórico-crítico e da hermenêutica popular, mergulhamos nas narrativas de Caim e Abel e de Acsa, identificando os projetos de sociedade presentes nesses textos, as disputas por terra, água e poder e o protagonismo de mulheres que desafiam estruturas patriarcais em defesa da vida de suas comunidades. Esses exercícios mostraram como a Bíblia pode inspirar a organização popular e fortalecer o trabalho de base desenvolvido nas igrejas e nos movimentos sociais.
Ainda nesse movimento, visitamos o Centro MAGIS Anchietanum, espaço da espiritualidade inaciana dedicado especialmente ao trabalho com as juventudes. Dialogamos com a equipe de pastoralistas sobre os desafios enfrentados pelas juventudes no mundo contemporâneo e conhecemos a proposta pastoral e formativa desenvolvida pelo Centro. Foi também nesse espaço que participamos da Vigília Inter-religiosa, organizada em parceria com diferentes organizações e tradições religiosas, com o tema “Povos atravessados: migrações, guerras e crises socioambientais”. Em um ambiente de oração, cantos, poemas, testemunhos e silêncio, reafirmamos que acolher pessoas migrantes e refugiadas é uma expressão concreta da fé e do compromisso com a justiça, conectando o diálogo inter-religioso à luta pela terra, pela dignidade e pela defesa da vida.

Quinto movimento – Ancestralidades da Terra: O último movimento do curso nos convidou a sentir a terra em outros ritmos e a nos aproximar das cosmovivências dos povos indígenas, reconhecendo seus modos de viver, cuidar e compreender o sagrado. Com a assessoria da ecoteóloga e indigenista Priscilla dos Reis, refletimos sobre sua experiência de retomada e sobre como as lutas indígenas desafiam a repensar nossa imagem de Deus, a relação com a criação e a construir um ecumenismo transformador comprometido com a defesa dos territórios e da vida. Na sequência, Rafael Martins, missionário do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), apresentou um panorama da realidade dos povos indígenas no Brasil, abordando os impactos do Marco Temporal, os conflitos nos territórios e os desafios permanentes para a garantia dos direitos originários. Ficou evidente que a luta pela terra passa, necessariamente, pela demarcação das terras indígenas e pelo reconhecimento de seus povos como guardiões de saberes ancestrais fundamentais para toda a humanidade.
Como parte desse aprofundamento, realizamos uma imersão na Aldeia Multiétnica Filhos da Terra – Núcleo Pankararu, sob a liderança de Simone Pankararu. Ao longo do dia, conhecemos a história da comunidade, seu processo de organização e a luta permanente pela preservação de sua identidade, de seu território e de seus direitos. Também escutamos os testemunhos de Raquel, Gabriel e Beatriz, que compartilharam as memórias, os desafios e a resistência do povo Pankararu, mostrando que a ancestralidade não é apenas herança, mas uma prática cotidiana de cuidado com a vida e com a terra. Encerramos a visita participando do Toré Sagrado, expressão de espiritualidade, memória, resistência e proteção dos Praiás, em um momento profundamente simbólico que reafirmou o compromisso assumido ao longo do curso: caminhar ao lado dos povos originários na defesa de seus territórios, de seus saberes e de seu direito de existir.

Ao final dessa caminhada, o CESEEP expressa sua profunda gratidão a todas as pessoas assessoras, parceiras, comunidades, movimentos, igrejas e espaços que tornaram possível esta 37ª edição do Curso Latino-Americano de Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso. Cada assessoria, celebração, visita, mística e partilha reafirmou que o ecumenismo se constrói no encontro, na escuta e no compromisso com a transformação da realidade. Agradecemos também a cada pessoa cursista, que trouxe sua história, sua comunidade, suas perguntas e seus sonhos para esta experiência coletiva: Maite María Alvarez Roca, João Dias Siqueira Junior, Maria Cícera Donata da Silva, Ayme Xochil Chang Moran Araujo, Thalita Rocha de Oliveira, Andy Aquino Agüero, Lucas Gabriel Pufal Klein, Ana Iara Altevogt Sander, Jair Alves, Lindolfo Luiz Welter, Soraya Heinrich Eberle, Raymunda Sônia Carvalho Brandão, Leonides Ana Marsaro, Hairo Rojas, Maurício Klug de Oliveira, Altina Alves e Priscilla dos Reis Ribeiro. Cada uma dessas pessoas passa agora a fazer parte da história do Curso Latino-Americano de Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso e leva consigo a responsabilidade de multiplicar essa experiência em seus territórios, igrejas e movimentos.
Assim, encerramos mais uma edição do curso e, ao mesmo tempo, abrimos novos caminhos. O que foi vivido nestes quinze dias continua em cada compromisso assumido, em cada comunidade fortalecida e em cada semente lançada ao longo da caminhada. Que sigamos cultivando um ecumenismo transformador, enraizado na luta pela terra, na defesa dos povos, no diálogo entre as diferenças e na esperança de uma América Latina cada vez mais justa, fraterna e comprometida com a vida.




