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Fé, diversidade e democracia unem vozes no 5º Ato Inter-religioso LGBT+

Na manhã fria e ensolarada de 6 de junho, dezenas de pessoas ocuparam o Largo do Arouche, em São Paulo, para proclamar que os corpos LGBTQIAPN+ têm direito ao Sagrado, à dignidade e ao pleno exercício da cidadania.

Com o lema “Toda a diversidade é sagrada: votamos pela democracia, contra o fundamentalismo”, o 5º Ato Inter-religioso LGBT+ reuniu lideranças religiosas, movimentos populares e pessoas comprometidas com a construção de uma sociedade mais justa, plural e acolhedora. O Ato Inter-religioso LGBT+ é uma manifestação anual realizada em São Paulo que une espiritualidade, diversidade e ativismo pelos direitos da população LGBTQIAPN+. Organizado pelo Fórum LGBTQIA+ Inter-religioso, o evento ocorre tradicionalmente durante o mês de junho (Mês do Orgulho), servindo como um espaço de resistência contra o fundamentalismo religioso e de defesa do Estado laico. 

Representantes do budismo, judaísmo, paganismo, espiritismo e das religiões de matriz africana compartilharam o espaço com lideranças adventistas, evangélicas e católicas, além de militantes de movimentos populares, testemunhando que a fé pode ser um caminho de encontro, respeito e defesa da vida. Por meio de falas, testemunhos e reflexões, as diferentes tradições presentes reafirmaram o valor da diversidade humana e a necessidade de combater todas as formas de discriminação, exclusão e violência.

A relevância de iniciativas como essa torna-se ainda mais evidente diante da realidade enfrentada pela população LGBTQIAPN+ no Brasil. Dados recentes do Atlas da Violência 2026 apontam a continuidade do crescimento dos registros de violência contra essa população. Em 2024, foram registrados mais de 10 mil casos de violência contra pessoas homossexuais e bissexuais, além de mais de 5 mil casos envolvendo pessoas transexuais e travestis. Os dados revelam um cenário preocupante e reforçam a urgência de ações que promovam o respeito, a proteção de direitos e a valorização da diversidade.

Para Angelica Tostes, coordenadora do Curso Latino-Americano de Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso do CESEEP, o diálogo interfé ganha sentido quando se compromete com as lutas por dignidade e direitos. “Diante do aumento da violência contra pessoas LGBTQIAPN+, não basta falar de tolerância ou convivência. É preciso enfrentar as estruturas que produzem exclusão, denunciar os fundamentalismos e afirmar que nenhuma tradição religiosa deveria ser utilizada para justificar discriminações, ódio e violências. A defesa da diversidade é parte da defesa da democracia.”

Ela destaca que reconhecer a pluralidade humana como expressão do Sagrado tem consequências éticas e políticas. “Nós, pessoas LGBTQIAPN+, ocupamos as ruas para defender nossos direitos, mas também ocupamos os espaços religiosos. Somos pessoas de fé, lideranças religiosas, agentes pastorais e integrantes de comunidades que insistem em afirmar que a diversidade não está fora do Sagrado, mas antes, é a própria expressão deste. ” 

A mobilização também foi palco para reflexões profundas sobre a instrumentalização da religiosidade. Ícaro Matias, representante do Rainbow Sangha Brasil na tradição budista, pontuou com lucidez que uma espiritualidade fundamentada na exclusão abandona sua essência sagrada para se tornar mero instrumento de dominação: “Fé que exclui não é fé, é poder”.

O ato reafirmou a necessidade de enfrentar os fundamentalismos religiosos, políticos e econômicos que legitimam desigualdades, violências e exclusões. As falas destacaram que a defesa da democracia exige compromisso com os direitos humanos, a justiça social e o reconhecimento da dignidade de todas as pessoas, especialmente daquelas historicamente marginalizadas. Em um contexto marcado pelo avanço de discursos de ódio e pela mercantilização da vida, celebrar a diversidade é também um gesto de resistência e de afirmação de relações baseadas na solidariedade, no cuidado e na partilha.

A presença do  CESEEP expressa seu compromisso com uma espiritualidade libertadora e com a construção de espaços de diálogo entre diferentes tradições religiosas comprometidas com a transformação da realidade. O diálogo interfé ganha sentido quando fortalece alianças em defesa da vida, denuncia as estruturas que produzem exclusão e apoia as lutas dos grupos que têm seus direitos negados. Diante das violências que atingem a população LGBTQIAPN+, reunir diferentes expressões de fé em torno da justiça e da dignidade humana é uma forma concreta de resistência e de construção de uma sociedade que coloque a vida acima do lucro, da intolerância e de qualquer forma de opressão.

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