Artigos Curso de Ecumenismo

MEMÓRIA DE UMA JORNADA QUE NÃO TERMINA – JOÃO DIAS

MEMÓRIA DE UMA JORNADA QUE NÃO TERMINA
Ecumenismo Transformador e a Luta pela Terra
João Dias*

CESEEP – Curso Latino-Americano de Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso – 01 a 15 de julho de 2026

Foram quinze dias. Mas pareceram uma vida inteira – e, ao mesmo tempo, um sopro. Quinze dias em que o tempo não foi medido por relógios, mas por passos em caminhadas, por vozes em vigílias, por lágrimas e sorrisos compartilhados em rodas de gente que aprendeu a chamar o outro de “irmão” sem precisar saber de qual igreja ele vinha.

Começamos com a análise de conjuntura de Silvia Regina, que nos devolveu ao chão duro da história: o tempo presente é urgente, as estruturas são pesadas, mas a esperança não é ingênua – é teimosa. Romi Bencke nos pegou pela mão e nos contou a história do ecumenismo não como uma narrativa de gabinete, mas como um rio subterrâneo de resistência que atravessa ditaduras, perseguições e a coragem de dizer “não” quando a fé era usada como arma. Magno Luiz nos fez sentir a terra sob as unhas e o grito dos que são expulsos dela – a luta pela terra na América Latina não é pauta, é ferida aberta.

E então veio o repensar. Ivone Gebara nos desafiou a desaprender o ecumenismo que já conhecíamos para aprender um novo, feito de afeto, de cotidiano, de águas e matas. Thalita Rocha abriu a Bíblia com mãos de parteira e nos mostrou que a leitura popular não é método, é militância: o Êxodo continua, e os sem-terra de hoje são o povo que caminha. Priscilla Ribeiro nos presenteou com a teologia indígena – não como “folclore”, mas como sabedoria ancestral que salva o planeta. E o Rafael do CIMI, com a força de Pindorama e Abya Yala, nos lembrou que os povos originários não estão “em luta” – eles são a própria luta, e seu território é o altar onde a vida se celebra.

Mas essa jornada não foi feita só de salas e palestras. Ela foi caminhada. Caminhamos ecumenicamente até a Igreja Ortodoxa Antioquina, onde o nos ensinaram que o sagrado habita nas mais diferentes formas. Caminhamos pela terra no Centro Agroecológico Paulo Kageyama, sentindo o cheiro de composto e de esperança plantada. Caminhamos no Anchietanum com as juventudes – e vimos que o futuro já chegou, e ele é colorido, inquieto e profético. Visitamos a Igreja Episcopal Anglicana, onde a liturgia nos abraçou com sua beleza simples e acolhedora. E, talvez, o passo mais sagrado de todos: a visita à Aldeia Multiétnica Filhos desta Terra em Guarulhos, onde os povos originários nos ensinaram que “terra” não se compra, se cuida.

À noite, o Cine Debate com O Evangelho da Revolução nos fez perguntar: onde está o Cristo hoje? Na rua, na ocupação, no acampamento. E fomos ao Acampamento Marielle Vive – e lá, entre barracos e bandeiras, entendemos que a luta pela terra é também a luta por justiça, por memória, por vida que não se curva.

E como esquecer a Vigília Ecumênica e Inter-Religiosa? Velas acesas, preces em português, espanhol, guarani, maracás e silêncio. Ali, o diálogo inter-religioso deixou de ser conceito para virar experiência mística: judeus, cristãos, indígenas, espíritas, povos de terreiro – todos rezando pela mesma Terra, pedindo o mesmo perdão, sonhando o mesmo céu.

E houve festa. A Festa Latino-Americana: música, dança, comida (que comidas), risada. Percebemos que o ecumenismo transformador também é alegria – porque quem luta junto, celebra junto como é belo o jeito Latino-Americano de ser. E a Festa Julina, confraternização genuína brasileira, rica em sabores, cores, e principalmente boas memórias.

Agradecimento

A todas e todos que fizeram desses dias uma eternidade de sentido, o nosso mais profundo e carinhoso muito obrigado.

À equipe de trabalho do CESEEP – vocês que suaram nos bastidores, que organizaram cada detalhe, que acolheram cada chegada e cada cansaço, que transformaram um curso em uma comunidade. Sem a generosidade, a paciência e a competência de vocês, nada disso teria sido possível. Vocês são a coluna que sustenta a casa.

Aos assessores e assessoras – Silvia, Romi, Magno, Ivone, Thalita, Priscilla e ao Rafael – vocês não vieram “dar aula”. Vocês vieram partilhar vida. Cada palavra foi semente. Cada provocação, um chamado. Cada silêncio, uma oração. Saímos daqui diferentes – mais inconformados, mais apaixonados, mais dispostos a não desistir.

A todas as comunidades que nos receberam – igrejas, aldeia, acampamento, centro agroecológico – vocês nos ensinaram que teologia se faz com os pés no chão e o coração aberto.

E, por fim, a cada companheira e cada companheiro de jornada: vocês são a prova viva de que outro mundo é possível. Nos olhos de vocês vimos o Reino sendo plantado aqui e agora.

Que esses 15 dias não fiquem no passado. Que eles nos acompanhem como fogo que não se apaga, como terra que não se vende, como resistência que não se curva.

Até a próxima caminhada. Até a próxima vigília. Até a terra ser de todos.
Muito obrigado, de coração.

João Dias, Julho de 2026.

João Dias, Professor de Educação Profissional, Psicopedagogo e Voluntário do Curso de Verão

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