Quem odeia o irmão é um assassino por Leonardo Boff

Reina muita violência, raiva e ódio em nosso país por causa das eleições do segundo turno.

O que nos escandaliza e vai contra a Constituição que afirma ser o Estado laico (não oficializa nenhuma religião nem pode ser usada partidariamente) são igrejas neo-pentecostais e algumas evangélicas, como explicitamente a Universal e seu líder que se transformaram em centros de fake news, verdadeira máquina de produção de calúnias e falsidades contra o candidato Haddad até afirmando, semelhante ao estado totalitário comunista “a criança depois de 5 anos passa pertencer não mais aos pais mas ao Estado”.

Quem pode imaginar semelhante absurdo de uma pessoa que vive em harmonia com sua família? Além de mentiras e calúnias suscitam o ódio.

Aqui não vale outro argumento que o da Bíblia que eles pelo menos reconhecem, embora traiam seus preceitos.

A grande mensagem de Jesus é o amor incondicional até para com o inimigo, pois inclusive “ama os ingratos e maus”(Lc 6,35). Quem está fora do amor, está longe de Deus e atraiçoa o legado de Jesus.

Mais explícito ainda é a primeira carta de São João:

“Se alguém disser:’amo a Deus’ mas odiar o irmão é mentiroso” (1João 4,20).

Num outro lugar é ainda mais peremptório:

“Quem odeia o irmão é um assassino. E sabeis que nenhum assassino tem a vida eternal”( 1 João 3,15).

Pois estamos cheios de assassinos em nosso país e sabemos especialmente de onde eles vêm, embora não exclusivamente, de um candidato que é claramente homofóbico, misógino, inimigo declarado dos LGBTI, de indígenas e quilombolas.

Prega a violência contra eles, coisa que já está sendo realizada em antecipação de sua eventual vitória (que os céus nos livrem) em vários lugares do país por parte de seus seguidores, até com o assassinato do grande mestre de capoeira, em Salvador, mestre do cantor Gilberto Gil e de Caetano Veloso e a violência contra uma jovem de Porto Alegre que com o canivete lhe puseram na perna a incisão da suástica nazista.

Essa atitude vai contra todo o lastro religioso cultural cristão de nosso pais. São verdadeiros inimigos da pátria, além de inimigos dos referidos acima.  Na linguagem do Novo Testamento são assassinos.

Mas o que mais nos falta e este foi o legado do Betinho, nosso Gandhi nos trópicos: a sensibilidade.

Soube identificar a crise central da humanidade atual na linha do Papa Francisco hoje.

De sua boca ouvimos e de seu exemplo aprendemos que:

“a crise central não está na nova economia política da exclusão, nem na corrupção da política, nem na derrocada moral da humanidade. A crise axial reside na falta de sensibilidade dos humanos para com outros seres humanos”.

Ficamos todos, depois de séculos de racionalismo e de ditadura do projeto da tecno-ciência, com uma espécie de lobotomia que nos impede de sentir o outro como outro, que incapacita nosso coração de sentir o pulsar de outro coração e nos faz cruéis e sem piedade diante do sofrimento humano e da devastação da biosfera.

Não o logos grego nem a ratio cartesiana mas o pathos (o sentiment profundo) e o cuidado (cura em latim) que organizam as estruturas básicas da existência humana no mundo junto com os outros.

Betinho soube desentranhar essa dimensão da com-paixão, da sensibilidade, da sim-patia e da em-patia para com o destino das grandes maiorias destituídas desta humanidade em nosso país com o seu principal projeto “Ação da cidadania contra a fome, a miséria e pela vida”.

Essa é a grande lição humanitária, ética e espiritual que nos deixou como legado imorredouro. Esta lição ainda hoje fala para o profundo de cada ser humano, onde mora o mundo das excelências como o amor, a solidariedade, com-paixão e a real irmandade entre todos.

Esta lição possui no contexto atual do Brasil, atravessado por ódios e raivas viscerais, estrema atualidade. Ela representaria a única cura verdadeiramente eficaz.

Como Betinho nos faz falta nos dias de hoje!

 

Leonardo Boff é filósofo, eco-teólogo e escritor

2018-10-15T11:46:02+00:00

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