O Ecumenismo que nos propomos a viver, é de partilha, não de divisão. É nosso, coisa de povo, não da estrutura eclesial. É coisa de quintal, de terreiro, debaixo da árvore, não no templo. É casa comum na beira da nascente!
… A Fonte da Vida transforma o chão seco em uma terra cheia de nascentes. (Sl 107:35)
Nossa formação me provoca a olhar a vida através de olhos transformados, ou talvez eu possa dizer convertidos. Uma pequena brincadeira, já que todos nós, cursistas, partilhamos a tradição cristã, seja em nossas raízes ou em nossa atualidade.
Falo dos olhos convertidos porque é exatamente isso que sinto! Pois essa tradição que partilhamos ainda precisa muito converter o coração ao que é Sagrado. Precisamos nos perguntar com seriedade e autocrítica: Como cristãs e cristãos, o que realmente nos é sagrado? Como nos relacionamos com o Mistério? Onde encontramos o sentido da fé?
Quando dizemos “Sagrado”, logo vem no imaginário da maioria de nós, o livro. A Bíblia, que é chamada sagrada, carrega em suas páginas mitos bonitos e formas do povo antigo pensar seu sagrado. Mas as mesmas páginas também carregam narrativas ensanguentadas de invasão de territórios, assassinatos de povos inteiros, violências cruéis contra mulheres e crianças, e a legitimação de imperadores e governadores tiranos, como se fossem segundo o coração de Deus.
Mas se nosso ecumenismo é casa aberta e comum na beira da nascente, temos a difícil e incômoda tarefa de questionar a sacralidade do livro. E é dessa conversão que eu digo quando conto sobre os meus olhos transformados. O Ecumenismo ao qual meus olhos se converteram, me dá coragem para questionar textos, para colocar a vida, em todas as suas formas, acima de qualquer dogma ou lei religiosa.
Pisando na terra dos sem terra do Mariele Vive, lemos o texto bíblico de Gn 4:1-16. Mas lemos respeitando a sacralidade, da vida e daquele território. Antes de abrir a Bíblia, entramos na realidade e, brincando com coisa séria, nos travestimos em personagens. Dois projetos nos orientaram, o do campo, pela terra livre de cercamentos, que partilha tudo o que se produz, conforme as necessidades comunitárias; e o projeto da cidade, que cerca a terra e acumula no armazém todo o fruto que alimenta a vida. Brincamos com o respeito devido, entendendo que essa brincadeira com coisa séria, é a realidade dura de muitos companheiros e companheiras na luta por terra livre. Depois de entrar na realidade daquele povo, abrimos a Bíblia para encontrar a Palavra de Deus no texto, e percebemos que Deus nos fala a partir da defesa da Vida. Dona Cícera profetiza para nós dizendo: DEUS NÃO COME SOJA!
Lemos também em nossa casa, o texto de Jz 1:11-15, onde conta sobre Acsa, que recebeu uma terra seca de seu pai com presente de casamento. A partir daí tivemos algumas interpretações, mas o conflito que mais nos incomodou foi a ambiguidade de Acsa, sendo mulher, oprimida, silenciada e tendo sua dignidade negada em muitas situações, pede ao pai mais terras, com fontes de água. O problema é que essas terras com fontes de água, já eram ocupadas por povos originários. É aí que o ecumenismo popular deve se posicionar, em defesa da Vida Sagrada. A vida do povo, do território e da água.
Pois o Deus com quem caminhamos não invade territórios, não elimina os povos e não destrói os bens naturais! Não é o Deus que cerca a terra e acumula no armazém. O nome desse deus é Capital, imperialismo, morte. Por isso não defendemos o livro, pois nosso Deus se revela na Vida Sagrada!
O Deus com quem caminhamos, é amor encarnado em araucária, no adubo que a alimenta, na água que chove e na luz do sol. É fogueira de Toré, é o sabor acentuado do rabanete, do cuzcuz e do suco de limão com xuxu. É quem criou a casa comum na beira da nascente, e rega a vida fazendo-a crescer Sagrada!
Thalita Rocha é mestre em Ciências das Religiões, pesquisadora no tema de leitura popular da Bíblia e teologia feminista da libertação. Teóloga ecofeminista, atua no secretariado do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI-MG).



