A Segurança Alimentar e a Democracia por Marcelo Barros

Quando passamos pelas ruas e praças de nossas cidades, principalmente depois do golpe de 2016, vemos que se multiplicou o número de pessoas em condições de abandono.

Famílias inteiras vivem em esquinas, praças ou debaixo de pontes e viadutos.

Também muitas famílias pobres que moram nas periferias urbanas e rurais vivem o mesmo drama. Não sabem se terão algo para comer hoje e amanhã.

Atualmente, no Brasil, milhões de pessoas não garantem ao menos uma refeição ao dia. Essa tragédia se espalha por todo o continente latino-americano e mesmo em todo o mundo.

Segurança Alimentar e Nutricional é direito básico de todo ser humano. Conforme a ONU, é dever do Estado garantir a todos o acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente.

Isso supõe práticas alimentares que favoreçam a saúde e de acordo com a cultura e a sustentabilidade ecológica. Atualmente, pequenos agricultores e agricultoras, extrativistas, pescadores e pescadoras, entre outros grupos não têm assegurada sua segurança alimentar.

A cada ano, no dia 16 de outubro, portanto, nessa terça-feira, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) comemora o “Dia Mundial da Alimentação”.

Nesse ano de 2018, a FAO criou um concurso que convocou crianças e adolescentes do mundo inteiro a expressar, em forma de desenho, como o mundo pode alcançar a meta de erradicar a fome até 2030.

É um cartaz para a campanha mundial Fome Zero. Por meio desta atividade, se quer conscientizar a nova geração para o fato de que existem 815 milhões de pessoas passando fome no mundo.

 

No calendário da ONU, o Dia Mundial da Alimentação consegue mobilizar e realizar eventos em mais de 150 países. Eles promovem conscientização e ação global para aqueles que sofrem com a fome e querem garantir a segurança alimentar e dietas nutritivas para todos.

Uma saída para a Segurança Alimentar é retomarmos a agricultura familiar, incentivar as agroflorestas, proteger os povos indígenas, povos ribeirinhos e as matas.

De fato, possibilitar às pessoas terem independência alimentar impactaria muito menos o planeta, além de promover novas relações entre os povos.

Uma reformulação na base de nossa educação formal também se faz necessária. É urgente ensinar as crianças as potencialidades nutricionais encontradas nos vegetais.

Mas, o principal é mesmo rever o modelo capitalista-consumista. Esse modelo só subtrai da Terra toda a sua biodiversidade e promove a fome, doenças graves e a insustentabilidade geral do planeta. É hora de escolhermos governantes e representantes que cuidem da vida e da Terra.

A fome e a pobreza não são elementos fatídicos de um destino cruel que cabe à maioria da humanidade. São consequência de um modo de organizar a sociedade e dependem quase unicamente de vontade política dos governantes e da sociedade que domina o país.

De 2003 até 2016, de acordo com a Constituição e no diálogo com os outros poderes estabelecidos, os governos de Lula e Dilma mantiveram o sistema econômico e social vigente, com todas as suas contradições.

Mesmo assim, conforme dados da ONU, conseguiram retirar mais de 32 milhões de pobres da extrema vulnerabilidade. Os programas sociais colocaram milhões de pessoas em melhores condições de vida.

As pessoas tiveram acesso ao alimento necessário, a mais condições de trabalho e, portanto, um salário mais mínimo. No entanto, infelizmente, isso não foi acompanhado por uma educação para a cidadania e uma maior consciência social.

E as elites, mesmo ganhando cada vez mais, nunca se conformaram em dividir aeroportos e ambientes sociais com uma classe que até então era destinada às senzalas de hoje.

A classe média sempre achou normal que um filho de família rica recebesse bolsa de mil dólares por mês para estudar na Europa, mas nunca que uma família pobre de cinco ou oito filhos ganhasse cem reais de bolsa-família para, ao menos, garantir a cesta básica.

Por isso, a elite se aliou ao império norte-americano que vive sempre de golpes e os patrocina, sempre que pode. E o resultado, todos sabem.

Agora, novamente, temos um momento decisivo de escolha. Infelizmente, os grandes meios de comunicação se especializaram em transformar a verdade em mentira e vendem a mentira como se fosse verdade.

Infelizmente, até o nome de Deus e a fé estão sendo manipuladas contra os interesses da maioria do povo. O que está em jogo é a Democracia no país, é a garantia de vida digna para todos.

Nesse segundo turno, somos chamados a votar pela retomada do esforço de integração do continente latino-americano e, finalmente, saldarmos a dívida moral de toda a sociedade com todos os empobrecidos desse país.

Temos de possibilitar ao nosso povo uma Segurança Alimentar que seja não apenas uma questão de comida e sim de vida digna e consciência de cidadania social.

 

Marcelo Barros,  monge beneditino, teólogo e biblista, assessor das comunidades eclesiais de base e de movimentos sociais. Tem 55 livros publicados, dos quais o mais recente é “Conversa com o evangelho de Marcos”. Belo Horizonte, Ed. Senso, 2018.

2018-10-17T13:20:51+00:00

Deixe um Comentário