Artigos CESEEP Curso de Ecumenismo

JOSÉ PASCOAL MANTOVANI – Espiritualidade em encruzilhadas

Depois de uma mesa muito farta no café da manhã, que reuniu pessoas de várias partes do Brasil e da América Latina, percebemos que o café é uma maneira de horizontalizar as relações humanas. Após essa “eucaristia dilatada”, fomos para o jardim da casa que nos abraçava tão lindamente. Na tradição cristã, o jardim tem sentidos profundos: pode ser o Éden, que nos ajuda a narrar uma cultura de cuidado, amparo e corresponsabilidade, ou o Jardim em que Jesus se revela a Maria Madalena logo após a ressurreição, local em que ela ouve e vê o ressuscitado e tem a certeza do povir. Essa imagem do jardim foi bastante significativa para o que viria a acontecer na abertura da mística do curso.

Fomos reunidos em círculo, uma forma de garantir que todos os olhos estivessem atentos a todas as vidas. No meio, havia uma representação que, logo ao bater o olho, me fez pensar na encruzilhada de Exu. Em uma cultura marcada pelo preconceito e pela intolerância, atribuir valor a partir dos princípios de matriz africana ou indígena soa, para ouvidos conservadores, como algo pecaminoso ou demoníaco. Contudo, à medida que ampliamos a nossa visão de Deus e de Suas múltiplas formas de ser e de se revelar, outros signos passam a fazer todo o sentido. A encruzilhada é um local de encontro, de aproximação, de tangências. E foi exatamente isso que o curso promoveu: muitos encontros, aproximações, diálogos, partilha de lágrimas, de esperanças, de afetos e de coragem.

Essa encruzilhada estava envolta pelo próprio jardim através de um círculo, lembrando que a vida é cíclica e que envolve toda a existência e os seres (encantados) em uma grande, infinita e bela gira. Bem no centro da encruzilhada havia um prato com terra, onde fomos convidados a lançar algumas sementes como símbolo das nossas expectativas para o curso. Havia também pequenos poemas, versos, versículos e canções demarcando o norte, o sul, o leste e o oeste. Nessa dinâmica, os participantes foram convidados, como quem anuncia aos confins da terra, a declamar os versos. Não eram meras denúncias, mas o anúncio de um grupo que estava com os pés no chão e os olhos atentos à vida, mostrando que nossas diferenças não servem para nos dividir, mas apenas para demonstrar que ser à imagem de Deus é conservar a nossa própria essência e singularidade.

Fomos chamados para dançar e cantar juntos, de braços dados, compartilhando aquele momento.

Aliás, se existe uma palavra que poderia sintetizar esse curso, seria o “compartilhar”. Bem na órbita do pensamento de Nego Bispo, pois, à medida que compartilhamos a vida, o que somos e o que vivemos, nós confluímos em um propósito maior.

Enfim, o curso do CESEEP significou muitas coisas, mas a que eu gostaria de enfatizar é essa dimensão singular, que não homogeneiza as existências; que é plural sem descaracterizar as experiências, e que se mantém acolhedora em todo o tempo.

 

José Pascoal Mantovani

Graduado teologia, filosofia, pedagogia e História; Mestre em ciência das religião; doutor em educação, atualmente prof. Visitante na Universidade Federal do ABC.

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Isto pode te interssar...

Artigos

O Povo Brasileiro: um povo místico e religioso

Leonardo Boff, teólogo e escritor O povo brasileiro é espiritual e místico goste ou não goste a intelectualidade secularizada,em geral, sem ou com tênue
Curso de Ecumenismo

Curso de Ecumenismo e díalogo inter religioso

Conceito Básico O Ecumenismo é uma das linhas transversais que caracteriza a proposta de formação do CESEEP. O Curso de