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Fé e Meio Ambiente: caminhos espirituais e suas raízes ambientais

Fé Bahá'í: unicidade da humanidade e harmonia com a

Natureza

A Fé Bahá’í, uma religião mundial e independente, oferece uma visão integrada que conecta diretamente o bem-estar espiritual da humanidade à saúde do planeta. Seus ensinamentos partem do princípio fundamental da unicidade: unicidade de Deus, unicidade das religiões e, de forma crucial, unicidade da humanidade.

 

Desse princípio, deriva-se a compreensão de que os seres humanos são custódios da Terra, com a responsabilidade ética de administrar seus recursos com justiça, moderação e visão de longo prazo. A natureza é vista como um espelho do divino, e sua exploração desequilibrada é considerada um desvio espiritual. Os escritos bahá’ís advertem contra o materialismo excessivo e o consumo desenfreado, incentivando um estilo de vida simples e uma relação de reverência com o mundo natural.

 

A comunidade bahá’í traduz esses princípios em ação prática. Por meio de seu órgão internacional, a Comunidade Internacional Bahá’í, participa ativamente de conferências globais sobre desenvolvimento sustentável e mudança climática, defendendo que a solução para a crise ambiental está intrinsecamente ligada à conquista da paz mundial e da justiça social. Em nível local, projetos educacionais e agrícolas promovidos por bahá’ís frequentemente incorporam princípios de conservação e vida em harmonia com o ecossistema, demonstrando o compromisso de unir fé, razão e ação para o cuidado da Casa Comum.

Budismo: compaixão, desapego e interdependência

A espiritualidade budista ensina que tudo na vida está ligado. Nenhum ser existe sozinho, portanto, o que acontece com as florestas, rios e animais atinge os seres humanos. Por isso, a compaixão — valor central do Budismo — não se limita às pessoas, mas alcança todos os seres sencientes.

 

Cuidar do meio ambiente, para os budistas, é praticar a não-violência (Ahimsa) no dia a dia, escolhendo formas de viver que gerem menos sofrimento ao mundo.

 

 

Em vários países, monges, templos e comunidades transformam esses princípios em ação concreta, protegendo áreas naturais, limpando rios e educando crianças para respeitar todas as formas de vida. Assim, meditação e cuidado com a Terra tornam-se partes do mesmo exercício espiritual.

Tradições originárias e de matrizes africanas: a sagrada conexão com a Terra

Para os povos originários e as tradições de matriz africana, a relação com o meio ambiente transcende o conceito de “cuidado” como uma prática externa. Aqui, a natureza é a própria linguagem e morada do sagrado. A Terra (muitas vezes chamada de Mãe Terra, Pachamama), as matas, os rios e as montanhas não são “recursos” ou cenários, mas entidades vivas, conscientes e pessoais, habitadas por forças ancestrais, divindades (os Orixás, no Candomblé, ou os Encantados, em tradições indígenas) que se manifestam através delas.

 

Dessa cosmovisão decorrem princípios éticos fundamentais:

 

Reciprocidade: a relação com a natureza é um diálogo contínuo de tomar e devolver. Todo uso de um recurso – uma planta medicinal, a caça para alimentação – é acompanhado de oferendas, gratidão e ritos de permissão, garantindo o equilíbrio.

 

Pertencimento e Não-Separação: o ser humano não está sobre ou fora da natureza, mas é uma parte integrante e interdependente dela. A saúde da comunidade está inextricavelmente ligada à saúde do território.

 

Sacralização do Território: lugares específicos são entendidos como áreas sagradas – fontes, clareiras, pedreiras – onde o mundo visível e o invisível se comunicam. Sua preservação é um imperativo religioso.

 

 

Esse conhecimento tradicional, transmitido por gerações através da oralidade e dos ritos, é hoje reconhecido como sabedoria biocultural. Práticas de manejo sustentável, o conhecimento profundo sobre plantas e ciclos ecológicos, e a própria demarcação de terras indígenas e de terreiros como espaços de preservação, demonstram como a espiritualidade se traduz em uma gestão ecológica concreta e eficaz, oferecendo um modelo alternativo de coexistência com o planeta.

Hinduísmo: o Divino em toda a Criação

O Hinduísmo nutre uma visão do mundo profundamente sacralizada, na qual o cuidado ambiental emerge naturalmente de seus conceitos filosóficos centrais. O princípio de que toda a criação é uma manifestação do Brahman (a Realidade Última) estabelece uma base espiritual para a reverência pela natureza. Florestas, rios, montanhas e animais não são meros recursos, mas expressões vivas do divino.

 

Dois conceitos são fundamentais para sua ética ambiental:

 

1) Vasudhaiva Kutumbakam, a famosa frase que significa “o mundo é uma família”. Este ideal promove um senso de parentesco e responsabilidade universal com todas as formas de vida, transcendendo barreiras espécies.

 

2) Dharma é frequentemente traduzido como dever, lei ou ordem cósmica. Proteger o meio ambiente é parte do dharma humano, um compromisso ético e espiritual para manter o equilíbrio (rita) do mundo.

 

Essa visão se concretiza em práticas culturais e religiosas seculares. A reverência a rios como o Ganges e o Yamuna como deusas, o respeito a animais como a vaca (símbolo de fertilidade e nutrição) e a serpente, e a consideração por árvores como a pipal (figueira-sagrada) como moradas de divindades, fomentam uma atitude cotidiana de respeito.

 

 

Em tempos contemporâneos, esses princípios inspiraram movimentos de ecologia devocional. Um exemplo histórico é o Chipko Andolan (Movimento do Abraço) dos anos 1970, no norte da Índia, onde comunidades, guiadas por ideais de proteção sagrada das florestas, abraçavam árvores para impedir seu corte, unindo ativismo ambiental e fé tradicional.

Cuidado na diversidade: a unidade no propósito

O que estas seis tradições nos ensinam é que, embora partam de fundamentos teológicos distintos, elas convergem em um propósito comum de reverência, cuidado e responsabilidade pela vida.

 

Que nossas comunidades de fé, em seu rico pluralismo, sejam faróis de esperança e agentes ativos na regeneração da nossa Casa Comum, tecendo, juntas, uma nova ética de paz com toda a criação.

 

Lembre-se, ao destruirmos a natureza, destruímos os sagrados que nela se manifestam.



Foto de Romi Bencke

Romi Bencke

teóloga luterana, pastora, integrante de movimentos e coletivos ecumênicos e inter-religiosos de direitos humanos e de defesa do cuidado socioambiental.

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