Convidamos você a ler a carta do voluntário João Dias, que atua na Tenda Arte e Espiritualidade do Cotidiano. Em uma escrita sensível e profundamente humana, ele nos oferece um testemunho que entrelaça memória, dor, pertencimento e esperança, revelando o Curso de Verão como um espaço vivo de construção coletiva, cuidado mútuo e espiritualidade encarnada no cotidiano.
Companheiros e companheiras, minha caminhada com vocês é curta, e por isso mesmo talvez não veja e enxergue com a experiência e vivência de décadas que a maioria tem nesta família. Peço desculpas se meu pensamento for ingênuo em relação à vida que tantos já dedicaram construindo essa história no Curso de Verão. É por me sentir seguro e em casa que compartilho algo que ficou reverberando desde a sexta-feira, 06/03/26.
Eu me sentia perdido antes do Curso de Verão, machucado pela vida nas diferentes dimensões. Machucado na família em que nasci, que estava tentando juntar os cacos após uma terrível tragédia. Mudança forçada de um território que considerava meu quintal de casa, onde cresci com liberdade, finquei raízes que me alimentam até hoje e jamais me farão esquecer o chão de onde vim e a pessoa que me tornei. Machucado em um novo território em que não me senti acolhido em minha comunidade de fé. No discurso todos têm lugar na casa do Pai, mas alguns têm mais lugar que outros, e não encontrei o meu lugar. Machucado no trabalho quando, embora apaixonado, teve um momento em que achei que o que fazia era pouco e precisava ressignificar meu próprio papel na sociedade. Machucado num território que é cruel com os seus habitantes.
O Curso de Verão traz um pouco daquele meu quintal.
Penso que o Curso de Verão não é um evento em si; o Curso de Verão é NÓS, em todos os momentos que estamos juntos, nas partilhas, no olhar terno e confiante, no abraço, na escuta dedicada, na fala honesta e sincera, na lágrima, no sorriso, na dança, no cheiro, no beijo, nas caronas, no aperto de mão, nos almoços, nos bolos de aniversário, nas resenhas tomando “umas”, felizes e descontraídos em volta de uma mesa. Nas relações que cultivamos mesmo à distância, na ajuda financeira, no amparo solidário àqueles que estão fragilizados, nos bons pensamentos, em nossas preces. Se não tiver isso, nunca será NÓS.
O Curso de Verão é NÓS, construído com mãos, braços, corpo, no trabalho braçal que nos esgota fisicamente, e como este corpo trabalha. Também esse corpo machucado e cansado resiste, nos aquece na delicadeza e respeito no abraço, no apoio físico, nos acalma, nos dá segurança.
O Curso de Verão é NÓS quando trabalhamos com a mente e como nossa mente trabalha: noites de insônia reverberando momentos inesquecíveis, fazendo memória, revelando novos dons. Mesmo com a mente cansada com o estresse de nossas próprias lutas, ela resiste, nos faz criativos na arte, na mística, na espiritualidade, na vida.
O Curso de Verão é NÓS quando, sobretudo, trabalhamos com o coração, do jeitinho que ele é: na sensibilidade, no afeto, nas frustrações, no desejo, no sentimento de tensão, no amor que dedicamos a cada momento (todos os momentos). Significa dedicação gratuita e integral; é no coração que entregamos não só nosso corpo e mente, mas sim nossa vida a algo grandioso em que acreditamos.
João Dias
João é Professor de Educação Profissional, Psicopedagogo e Voluntário do Curso de Verão.


