Dia da Memória, da Verdade e da Justiça
Aproveitando o 24 de março na Argentina: uma mensagem global para lembrar, buscar a verdade e perseguir a justiça
Queridas e queridos colegas, amigas e amigos,
Hoje, 24 de março, nos unimos ao povo argentino na comemoração do Dia da Memória, da Verdade e da Justiça. Lembramos as vítimas do terrorismo de Estado, honramos aqueles que resistiram e permanecemos ao lado de quem continua lutando contra suas consequências — na Argentina e além.
Lembramos, em particular, das 30.000 pessoas detidas-desaparecidas durante a ditadura na Argentina. Sua ausência não é apenas parte do passado; segue sendo um chamado presente à memória, à verdade e à justiça.
Aproveitando este dia na Argentina, e o percurso histórico do país na busca de justiça para as vítimas do terrorismo de Estado por meio de julgamentos civis dos responsáveis, queremos também compartilhar uma mensagem que transcende o nacional. A Argentina tornou-se uma referência mundial ao demonstrar que mesmo aqueles que exerceram o poder estatal podem ser levados à justiça, e que a responsabilização é indispensável. Não há justiça sem verdade, e não há justiça sem responsabilidade.
Buscar justiça para as vítimas do terrorismo de Estado implica também garantir justiça em relação a quem o perpetrou, incluindo reconhecimento, reparação, restituição da dignidade e consequências legais.
O trabalho das Madres e Abuelas de Plaza de Mayo é central nessa história. Em particular, a luta das Abuelas de Plaza de Mayo tornou possível a criação do Banco Nacional de Datos Genéticos (BNDG) / Banco Nacional de Dados Genéticos, criado em 1987 pela Lei 23.511 — um dos primeiros bancos de dados genéticos do mundo — e uma ferramenta pioneira para a restituição da identidade de crianças e netos apropriados durante a ditadura.
Esta mensagem não é apenas para acompanhar o povo argentino. Dado o contexto regional e global, converte-se também em uma mensagem ao mundo — e especialmente aos estudantes e ao movimento ecumênico.
O que ocorreu na Argentina foi parte de um contexto mais amplo de regimes autoritários na América Latina e de uma história global mais extensa de violência estatal, repressão e desaparecimento forçado. E não se trata apenas do passado. Vivemos em um mundo onde as formas de violência estatal continuam se manifestando, às vezes de maneira explícita e outras vezes normalizadas, por meio de guerras, invasões, ocupações e políticas que negam a dignidade dos povos e seu direito de existir, e em alguns casos por meio de processos que só podem ser nomeados como genocídio.
No passado, o terrorismo de Estado em nível internacional se expressou muitas vezes por meio do apoio a ditaduras locais, particularmente na América Latina. Hoje, esse terrorismo de Estado internacional assume novas formas, visíveis em violações ao direito internacional, em agressões unilaterais e na normalização da violência exercida com impunidade em escala global. Isso também se reflete nas múltiplas situações vividas hoje por distintos países submetidos a pressões, bloqueios ou agressões; entre eles, Cuba continua sendo um exemplo persistente dessas formas contemporâneas de violência estrutural.
Essa continuidade entre passado e presente exige clareza. A memória não pode reduzir-se a uma comemoração; deve seguir sendo uma ferramenta política e ética que nos permita reconhecer padrões, resistir à normalização e agir antes que a violência se torne estrutura.
A partir da experiência argentina, afirmamos um compromisso comum:
Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais terrorismo de Estado. Nunca mais desaparecimento forçado. Nunca mais a normalização da violência a partir das instituições de poder.
E com isso, lembramos não apenas aqueles que sofreram o terrorismo de Estado na Argentina, mas também todas as pessoas na América Latina e no mundo que foram vítimas da repressão, da violência, da guerra, do genocídio e da injustiça — e aquelas que hoje ainda sofrem suas consequências.
Permanecemos ao lado de quem resiste e continua buscando verdade e justiça na Argentina, e nos solidarizamos com todos os povos que hoje enfrentam formas de terrorismo de Estado em nível internacional — desde o genocídio, até a guerra e a violência estrutural — que afetam comunidades em diferentes partes do mundo, da Palestina às Filipinas e muito além.
Isso não é apenas memória. É um posicionamento e uma responsabilidade. Implica continuar buscando a verdade, continuar perseguindo a justiça e continuar estando ao lado de quem hoje tem sua dignidade negada.

Marcelo leites, Secretário-Geral – WSCF (Federação Universal do Movimento Estudantil Cristão)



