“É importante salientar a necessidade da formação para aqueles que promovem o diálogo inter-religioso. Se quisermos que seja autêntico, este diálogo deve ser um caminho de fé. Como é necessário que os seus promotores sejam bem formados nos respectivos credos, e bem informados a respeito do credo dos outros!
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A colaboração inter-religiosa oferece a oportunidade para manifestar os mais elevados ideais de cada tradição religiosa. Assistir os enfermos, levar alívio às vítimas das calamidades naturais ou da violência, ajudar os idosos e os pobres: estes são alguns dos campos em que pessoas de diferentes religiões colaboram. Encorajo todos aqueles que são inspirados pelo ensinamento das respectivas religiões, a ajudarem os membros sofredores da sociedade.” Bento XVI aos participantes na plenária do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso

Já vão fazer 6 anos desde que eu comecei a trilhar os caminhos de fé do diálogo inter-religioso. Os estudos nessa área eu comecei antes, há 9 anos quando iniciei a faculdade de Teologia na PUC-Rio.
Por mais que a gente possa ler e refletir e assistir mesas “diplomáticas” de diálogo inter-religioso (que na maioria das vezes são compostas só por homens predominantemente brancos), nada se compara com a cultura do encontro e a convivência com pessoas de outras religiões e espiritualidades – isso sim pra mim é diálogo, porque aí existe troca, escuta, partilha, acolhida, respeito.
Não demorou muito pra eu entender que os preconceitos que eu tinha com as religiões de matriz africana eram na verdade racismo religioso, sintoma do racismo estrutural da nossa sociedade. Porque, afinal de contas, eu nunca tive preconceito com outras religiões, só as de referencial cultural afro. Isso ficou ainda mais claro pra mim quando viajei pra Zimbábue e Quênia ano passado. O imaginário coletivo que o cristianismo branco eurocentrado criou sobre o mal e demônios foi justamente a partir de símbolos culturais africanos e por isso que até hoje a galera cristã vive demonizando as religiões afro-brasileiras.

Hoje, com tantas trocas, partilhas, convivências e aprendizados com os povos de terreiro, tem 3 coisas que eu especialmente admiro e acredito que o cristianismo ocidentalizado deveria aprender com as religiões de matriz africana:
1: a conexão com a terra é o que sustenta nossa relação com o sagrado.
2: todas as pessoas são bem acolhidas sem julgamento e integradas com carinho, cuidado e afeto nas celebrações.
3: religião, espiritualidade, fé, crença (ou seja lá o nome que você queira dar para o que você vive com o sagrado) não é coisa pra querer impor ou tentar convencer os outros.
Dentro do referencial cristão, eu costumo dizer que a verdade se impõe por força própria. Querer ficar provando ou defendendo nossa fé é muito mais sinal do nosso ego e presunção do que seguimento do Evangelho. Quem vive de apologia na prática acaba só cultivando dissidências e esquece que a verdade é o Amor.

O que nos une sempre foi, é, e será maior do que tudo que nos divide.
Viva os povos de axé! ♥️
Suzana Moreira
Doutoranda e mestra em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio, educadora popular e ativista socioambiental junto ao Movimento Laudato Si', CESEEP, e Movimento de Juventudes e Espiritualidades Libertadoras, e faz parte da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+



