Degradação ambiental: de quem é a culpa – Frei Betto

Artigo originalmente publicado no jornal O Globo.     

      Fui a uma escola de ensino fundamental conversar com os alunos sobre meu livro Começo, meio e fim (Rocco), que ajuda crianças a entenderem o fenômeno da morte.

       Um garoto de oito anos contou que, na família dele, dois parentes têm câncer, e perguntou por que a minha geração causou tanto estrago ao meio ambiente, como o uso excessivo de agrotóxicos no cultivo dos alimentos.

       Fiz o devido mea culpa, mas lembrei que, quando eu tinha a idade dele, ninguém comprava água mineral em supermercado para, em seguida, entulhar o lixo de garrafas pet. Tomávamos água do filtro de barro. Ninguém usava copos de plástico descartáveis. Os copos eram de vidro e lavados para reuso. 

       Não se amontoavam nos lixões garrafas de leite, refrigerantes e cerveja. Elas eram devidamente devolvidas ao fornecedor, limpas, esterilizadas e reutilizadas. 

       Quase não havia academias de ginástica nem excesso de obesidade precoce, pois andávamos a pé em vez de entrar no carro para percorrer dois ou três quarteirões e poluir o meio ambiente.

       Escada rolante não existia. Subíamos os degraus massageando o coração e os músculos. As fraldas dos bebês eram lavadas, pois não existiam as descartáveis. E deixávamos para secar a roupa no varal, graças às energias solar e eólica, e não em equipamentos que aumentam acentuadamente o consumo de energia elétrica. 

       Espremia-se laranja com a mão, sem uso de energia elétrica. Em cada domicílio havia apenas um rádio e um aparelho de TV, sem a ânsia consumista que, hoje, multiplica tais equipamentos pelos cômodos da casa.

       Como não existia celular, as pessoas prestavam mais atenção umas nas outras, dialogavam, se visitavam. Na falta de e-mails, escreviam-se cartas, o que exigia certo domínio das regras de gramática e sintaxe, para não decepcionar o destinatário. 

       Para despachar objetos frágeis pelos correios utilizávamos jornais velhos na embalagem, e não plástico bolha ou pellets, que levam anos para se degradar, além de contaminarem a natureza.

       A grama era cortada com uma tesoura grande, e não com máquinas de alto consumo de energia. As canetas eram recarregáveis, sem necessidade de descartá-las. 

       Os homens faziam a barba com navalha. Bastava amolá-la para mantê-la afiada, sem precisar amontoar no lixo aparelhos de plástico com lâminas de curta duração.

       Sim, minha geração cometeu muitos erros, como descarregar esgotos em rios e mares e derrubar florestas para obter lenha. Mas a de vocês, que têm 8 ou 10 anos de idade, precisa reagir ao que, hoje, faz a geração de seus pais e avós: acumula toneladas de lixo eletrônico.

       São montanhas de equipamentos descartados: pilhas, baterias, celulares, micro-ondas, impressoras, monitores etc. Tudo feito de material inorgânico, como mercúrio, cádmio, berílio e chumbo, todos altamente poluentes, absorvidos pelo solo e pelos lençóis freáticos. Calcula-se que, a cada ano, são acumulados no mundo 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico. Só nos EUA são descartados anualmente 300 milhões de aparelhos eletrônicos. 

       Se não detivermos o consumismo que semeia morte na natureza e na espécie humana, a preservação ambiental e o futuro sadio da humanidade perdurarão como meras expressões retóricas, assim como a ética e o bem comum para certos políticos.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

2019-10-10T11:30:19-03:00

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