Participar do 37º CURSO LATINO-AMERICANO DE ECUMENISMO E DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO, promovido pelo CESEEP, em São Paulo, com o tema: “Ecumenismo Transformador e a Luta pela Terra”, foi uma experiência marcante de formação, espiritualidade e compromisso. Reunindo participantes do Brasil, Cuba, Peru e República Dominicana, o curso constituiu-se em um verdadeiro processo de conversão do olhar e do coração, reafirmando que o ecumenismo latino-americano e caribenho nasce do encontro entre os povos e da escuta dos clamores dos pobres e da Terra.
Inspirados/as pela tradição da Teologia da Libertação e pela caminhada ecumênica construída em nosso continente, fomos convidados/as a realizar uma leitura crítica da realidade por meio da análise de conjuntura. Compreendemos que as desigualdades sociais, a concentração da terra, a violência contra os povos originários, o racismo, o patriarcado, o avanço dos fundamentalismos e a devastação ambiental não são acontecimentos isolados, mas consequência de um modelo econômico que transforma a criação em mercadoria e coloca o lucro acima da dignidade humana.
O estudo da história do ecumenismo mundial e latino-americano/caribenho revelou que a unidade entre as Igrejas não é um fim em si mesma, mas um testemunho comum em favor da justiça, da paz e da integridade da criação. Aprendemos que o verdadeiro ecumenismo acontece quando diferentes tradições de fé caminham juntas na defesa dos empobrecidos/as, dos povos indígenas, das comunidades tradicionais, das mulheres, dos migrantes e de todos aqueles/as cuja vida é constantemente ameaçada.
A exibição do documentário “O Evangelho da Revolução” resgatou a memória de cristãos e cristãs que assumiram, à luz do Evangelho, uma postura profética diante das injustiças sociais. A obra recorda que seguir Jesus implica colocar-se ao lado dos crucificados/as da história, assumindo os riscos da denúncia e do anúncio de uma sociedade fundada na fraternidade, na partilha e na esperança.
Outro eixo fundamental do curso foi a reflexão sobre a luta pela terra e a produção agroecológica. A terra foi compreendida como dom de Deus, Casa Comum e espaço de vida, e não como simples mercadoria. A agroecologia apresentou-se como expressão concreta de cuidado com a criação, de soberania alimentar e de resistência ao modelo do agronegócio que concentra riquezas, expulsa comunidades e destrói biomas. Defender a terra significa defender a própria vida.
As visitas realizadas fortaleceram ainda mais esse aprendizado. No acampamento e assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), encontramos famílias que, por meio da organização popular, da cooperação e da produção agroecológica, demonstram que a reforma agrária é um caminho de justiça social, apontando a possibilidade de construção de um projeto popular de sociedade. Ali percebemos que a luta pela terra é também luta pela dignidade, pela alimentação saudável e pela preservação da natureza.
As visitas à Catedral Metropolitana Ortodoxa de Antioquia e à Paróquia Anglicana da Santa Cruz – Centro Diocesano, revelaram a riqueza da diversidade cristã. Conhecer suas tradições, espiritualidades e formas de celebrar a fé reforçou a convicção de que o ecumenismo se constrói no respeito às diferenças e na busca de uma missão comum em defesa da vida. A unidade desejada por Cristo ganha sentido quando as Igrejas caminham juntas na promoção da justiça e da paz.
Entre todas as experiências do curso, a visita ao território onde vivem nove etnias indígenas foi uma das mais impactantes. Saber que aquela terra havia sido utilizada como aterro sanitário, evidencia uma das muitas expressões do racismo estrutural e da histórica negação dos direitos dos povos originários. Durante a caminhada, encontramos cacos de vidro, cerâmicas, louças, seringas, agulhas, ampolas e outros resíduos hospitalares ainda presentes no solo contaminado. Ao mesmo tempo, presenciamos um processo de recuperação ambiental conduzido pelas próprias comunidades, que reflorestam, preservam sua cultura e reafirmam sua profunda relação espiritual com a terra. Essa realidade nos fez compreender que cuidar da criação é também reparar injustiças históricas e reconhecer os povos indígenas como guardiões da biodiversidade e sujeitos de direitos.
Além da programação oficial do curso, aproveitamos os momentos de folga para realizar duas visitas que enriqueceram profundamente nossa formação e ampliaram nossa compreensão sobre o diálogo inter-religioso. No Mosteiro Zen Budista, fomos acolhidos para conhecer a espiritualidade, a prática da meditação, o silêncio, a simplicidade e a disciplina que caracterizam essa tradição milenar. A visita foi enriquecida pela participação da pastora Priscila, da Igreja Batista do Caminho, convidada a partilhar sua experiência missionária e pastoral junto aos povos indígenas no estado do Rio de Janeiro. Seu testemunho revelou uma vivência da fé comprometida com a defesa da vida, da cultura e dos direitos dos povos originários, mostrando que diferentes tradições religiosas podem convergir na promoção da justiça, da dignidade humana e do cuidado com a Casa Comum.
Essa experiência confirmou, na prática, um dos grandes aprendizados do curso: o diálogo inter-religioso não exige que as tradições renunciem às suas identidades, mas convida cada uma a colocar seus dons a serviço da vida. O encontro com a espiritualidade budista nos fez perceber que a contemplação, o silêncio e o autocuidado não representam fuga da realidade, mas podem fortalecer a capacidade de agir com compaixão, equilíbrio e respeito diante dos desafios do mundo. Em sintonia com o ecumenismo latino-americano e a Teologia da Libertação, compreendemos que a espiritualidade autêntica se expressa no compromisso concreto com a justiça, a paz e a defesa dos mais vulneráveis. Em uma sociedade marcada pela intolerância, pela violência e pelas diversas formas de exclusão, experiências como essa renovam a esperança e demonstram que o diálogo sincero entre diferentes expressões de fé é um caminho indispensável para a construção de uma cultura do encontro, da solidariedade e do bem viver.
A outra visita foi à Paróquia São Miguel Arcanjo, onde desenvolve sua missão o Padre Júlio Lancellotti, referência nacional na defesa da população em situação de rua. Participamos da celebração da missa e em seguida, acompanhamos a distribuição do café da manhã às pessoas em situação de rua, testemunhando uma Igreja que acolhe sem julgamentos, reconhece a dignidade de cada pessoa e transforma a solidariedade em gesto cotidiano. Tivemos ainda um momento de diálogo com o Padre Júlio e sua equipe, na secretaria da paróquia, quando partilharam a realidade do trabalho pastoral, os desafios enfrentados diante da exclusão social e a necessidade de uma Igreja comprometida com os direitos humanos. Esse encontro tornou visível o Evangelho vivido na prática, lembrando-nos que a opção preferencial pelos pobres continua sendo um dos pilares da missão cristã.
Retornamos desta experiência convencido e convencida de que o ecumenismo transformador não acontece apenas nos templos ou nos documentos produzidos pelas Igrejas. Ele nasce nos territórios onde a vida resiste e insiste, nos movimentos populares, nas comunidades de fé, no diálogo entre religiões, nas lutas dos povos indígenas, dos trabalhadores e trabalhadoras e das pessoas excluídas, e em todos os espaços onde mulheres e homens de diferentes tradições se unem para promover a justiça, cultivar a paz, fortalecer a solidariedade e alimentar a esperança de relações mais fraternas, inclusivas e democráticas.
Como nos ensina a tradição latino-americana da libertação, não existe fé autêntica sem compromisso com a justiça social. O Deus da vida continua chamando suas Igrejas e todas as pessoas de boa vontade a caminharem juntas, superando divisões e construindo uma sociedade onde a terra seja partilhada, os povos sejam respeitados e toda a criação possa viver com dignidade. O curso reafirmou que o ecumenismo transformador é, acima de tudo, uma espiritualidade da esperança que se traduz em solidariedade, profecia, resistência e compromisso concreto com a vida em sua plenitude.
Nossa gratidão ao CESEEP pela acolhida, pela formação e por esta experiência transformadora. Agradecemos à Arquidiocese de Chapecó, na pessoa do Pe. Clair, pelo apoio e pela confiança e aos amigos/as do CEBI região Chapecó. Aos colegas de caminhada, obrigado pela parceria, pelas amizades, pela sensibilidade, pela paciência com as diferenças de idioma e por todas as vivências, partilhas e momentos de convivência. Levamos conosco aprendizado, esperança, força e a riqueza da caminhada coletiva.Leonides Ana Marsaro e Lindolfo Luiz Welter.
Leonides Ana Marsaro e Lindolfo Luiz Welter



