Educação Popular

Lourdes Possani

Curso de Verão (CESEEP)

– O Curso de Verão nasceu em 1988, com o objetivo de oferecer formação ecumênica e popular, feita em mutirão.

– Criado e organizado pelo CESEEP (Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular), a partir da necessidade de formação para agentes e pastoral e lideranças de movimentos sociais.

– Caráter nacional, com abertura à participação de pessoas de outros países.

Massivo e ao mesmo tempo, com espaço para pequenos grupos de reflexão e de convivência.

 Eixos do Curso de Verão

– Ecumenismo e diálogo inter-religioso: conceitos e convivência.

– Educação Popular: metodologia.

– Mutirão: generosidade e gratuidade como valores e como prática no trabalho e nas relações.

– Arte: estética e eixo metodológico como conceito e prática.

 

O que é (ou não é) Educação Popular?

– Educação para pessoas populares?

– Educação para movimentos sociais?

– Educação nas pastorais?

– Educação para os pobres?

– Popularização da Educação formal?

– Modelo que se opõe à educação formal?

– Adaptação da educação formal?

 Educação

– A Educação é um fenômeno complexo, composto por um grande número de correntes, vertentes, tendências e concepções, enraizadas em culturas e filosofias diversas.

– Toda forma de Educação é política. Portanto, não existe neutralidade em Educação, mesmo que os/as educadores/as não o saibam… Eles/as têm lado!

– Por ser POLÍTICA, implica princípios e valores que configuram uma certa visão de mundo e de sociedade. Daí existirem muitas concepções e práticas da Educação.

– Não dá para falar de uma Educação em geral, separando-a de se seu contexto histórico.

– A pedagogia, como teoria da Educação, traduz essa riqueza de práticas educacionais.

 Pedagogias tradicionais

Pedagogias que se dizem puramente científicas, sob sua pseudo-neutralidade, escondem a defesa de interesses hegemônicos da sociedade e concepções de Educação, muitas vezes, autoritárias e domesticadoras.

 Pedagogias críticas

– As pedagogias críticas têm todo interesse em declarar seus princípios e valores, não escondendo a politicidade da Educação.

– Situam-se no mesmo campo de significação pedagógica, o campo democrático e popular.

– Mas… apesar da afinidade ideológica entre as pedagogias críticas, como ocorre com os modelos educacionais históricos, elas também podem ter conotações diferentes.

– Cada uma tem uma evolução particular, se transformando ao longo da história, assumindo novos campos de atuação: a causa ecológica, a da diversidade de gênero, das etnias, a dos direitos humanos…

– Estas pedagogias: ora uma se aproxima mais do estado e outra se afasta; uma se assume mais como educação formal e outra mais como educação não-formal; uma pode estar mais próxima da esfera pastoral, outra da esfera sindical; uma mais ligada aos movimentos sociais e populares e outra atuando mais em governos democráticos e populares.

– Essa variedade não se constituiu em deficiência, mas em riqueza, formando um mosaico de experiências: teorias e práticas compõem o campo das pedagogias críticas.

– É nesse campo que se insere EDUCAÇÃO POPULAR.

 Um pouco da história da Educação Popular

– Surgiu antes da Segunda Guerra Mundial, na Espanha, ligada ao movimento anarquista…

– Chegou à América Latina por meio de intelectuais orgânicos ligados ao anarquismo…

– Até os anos 50, era entendida como extensão da Educação formal para todos, principalmente para as zonas rurais…

– Nos anos 50 ela era entendida como Educação de base, como desenvolvimento comunitário. Daí ela ser chamada também de Educação comunitária

– Na América Latina, no final dos anos 50, já apareciam duas tendências na Educação Popular (EP):

  1. a) como Educação libertadora (nascida no terreno fértil das utopias de independência);
  2. b) como Educação funcional (profissional), mão de obra mais produtiva (desenvolvimento nacional).

– Nos anos 70 essas duas tendências continuaram na Educação Popular.

– Com os regimes autoritários na América Latina, a EP refugia-se nas ONGs e movimentos sociais, sindicais e políticos sob a forma de Educação não-formal, fora do Estado, contrapondo-se à Educação escolar (formal)…

– Crise da Educação Popular nos anos 80 e 90: perde-se a unidade, mas ganha-se em diversidade: surgem milhares de pequenas experiências, espalhando-se por toda a América Latina e diferentes projetos.

– Essas experiências e projetos, em sua maioria, são iniciativas de movimentos sociais (negros/as, indígenas, mulheres, LGBTI, sem terra, sem teto, saúde, educação etc.).

– No Brasil, experiências de governos democráticos levaram a Educação Popular para a Educação formal (como em São Paulo, Porto Alegre etc.).

– Boa parte dessas experiências ocorreu com a Educação de Jovens e Adultos – em parceria com os movimentos populares (MOVA).

– Não é o lugar físico que a define, mas sim os seus pressupostos e sua posição frente ao mundo que se quer para as pessoas.

– Definido os pressupostos, claro que há a necessidade da coerência entre o modelo e as estratégias para se alcançar os objetivos educacionais.

– Educação como espaço criador.

– Escola como uma das possibilidades de educação, mas não a única.

– Educação para além das competências lecto-escritoras.

– Leitura do mundo precede a leitura da palavra (Freire).

– Educação como possibilidade de transformar o mundo, quando transforma as pessoas.

Utopia movendo as pessoas a transformar o mundo num lugar bom para todas as pessoas.

– Homens e mulheres reconhecidos como pessoas dotadas de diferentes saberes.

– Educação política – assumida em sua identidade e sem neutralidade.

– Dialogicidade – como conceito e prática.

– Definição do lugar onde se está e onde se quer chegar.

 Educadores/as

– Sujeitos de APRENDIZAGEM e de ENSINO: aprendem enquanto ensinam.

– Têm o DIÁLOGO como fundamento e não apenas como estratégia de ensino.

– Compreendem a Educação como ATO POLÍTICO – sem pretensa neutralidade.

– Protagonistas dos processos educativos (ensino e aprendizagens).

 Educandos/as

– Sujeitos de direitos – inclusive à educação, inclusive à escolaridade.

– Sujeitos produtores de conhecimento.

– Sujeitos “aprendentes” e “ensinantes”: ensinam enquanto aprendem (seres de saberes advindos da experiência, de vida, de trabalho, da família, da comunidade…).

– Protagonistas em seus processos de aprendizagem.

 Metodologia da Educação Popular

– Parte do conhecimento do educando para a construção de novos conhecimentos.

– Valoriza / considera o conhecimento do educando.

– Coerência com os princípios da dialogicidade e politicidade na Educação.

– Construção coletiva de saberes a partir de experiências individuais e coletivas.

– Horizontalidade e circularidade enquanto conceito e prática (processos participativos).

– Direito ao conhecimento acumulado socialmente.

– Possibilidade de construção de novos saberes.

– Significado / relevância para a vida dos/as educandos/as

– Relação intrínseca com as necessidades dos movimentos e pastorais sociais em busca de transformação social.

 Conceito de Educação Popular

A Educação Popular se constitui como “um conjunto de atores, práticas e discursos que se identificam em torno de umas ideias centrais: seu posicionamento crítico frente ao sistema social imperante, sua orientação ética e política emancipatória, sua opção com os setores e movimentos populares, sua intenção de contribuir para que estes se constituam em sujeitos a partir do alargamento de sua consciência e subjetividade, e pela utilização de métodos participativos, dialógicos e críticos” (Torres, 2011:76).

Educação Popular hoje

“Trata-se de um paradigma teórico nascido no calor das lutas populares que passou por vários momentos epistemológicos e organizativos, visando não só à construção de saberes, mas também ao fortalecimento das organizações populares. Sem perder seus princípios, a Educação Popular vem se reinventando hoje, incorporando as conquistas das novas tecnologias, retomando velhos temas e incorporando outros (…) mantendo-se sempre fiel à leitura do mundo das novas conjunturas” (Moacir Gadotti).

Referências

BEISIEGEL, Celso de Rui, 2008. Política e educação popular: a teoria e a prática de Paulo Freire no Brasil. Brasília: Liber.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues, 1982. Educação popular. São Paulo: Brasiliense.

FREIRE, Paulo, 1979. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

FREIRE, Paulo, 1993. Política e educação. São Paulo: Cortez.

GADOTTI, Moacir & Carlos Alberto Torres, 1992. Estado e educação popular na América Latina. Campinas: Papirus.

GADOTTI, Moacir & Carlos Alberto Torres, 1994. Educação popular: utopia latino- americana. São Paulo: Cortez/Edusp.

GADOTTI, Moacir. Educação popular, educação social, educação comunitária conceitos e práticas diversas, cimentadas por uma causa comum. Disponível em: http://www.proceedings.scielo.br/pdf/cips/n4v2/13.pdf. Acesso em 02/01/18.

POSSANI, L. F. P.; SANCHEZ, W. L. [Orgs.], 2011. Formação Ecumênica e Popular feita em Mutirão. Curso de Verão 25 anos. São Paulo: Editora Paulus.

TORRES, Carlos Alberto, 1992. A política da educação não-formal na América Latina. São Paulo: Paz e Terra.

TORRES, Carlos Alberto, 1997. Pedagogia da luta: da pedagogia do oprimido à escola pública popular. Campinas: Papirus.

TORRES, Rosa Maria (org.), 1987. Educação popular: um encontro com Paulo Freire. São Paulo: Loyola.

WANDERLEY, Luiz Eduardo, 1984. Educar para transformar: educação popular, igreja católica e política no Movimento de Educação de Base. Petrópolis: Vozes.

2018-08-22T16:58:12+00:00

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