Frei Betto: “Não se deve cultivar no povo uma expectativa de vida burguesa” entrevista ao Granma Internacional

O intelectual e teólogo brasileiro analisa, em entrevista ao Granma Internacional, diferentes aspectos da situação atual no Brasil e oferece suas considerações sobre os desafios enfrentados pelos movimentos progressistas da América Latina e do Caribe.

entrevista realizada por Granma Internacional

FREI Betto é um dos intelectuais latino-americanos mais conhecidos por suas contribuições teóricas, suas ligações com líderes da região, sua amizade com Fidel Castro e seu trabalho permanente em prol dos movimentos sociais e as causas justas do continente e do mundo.

Seus conceitos, inerentes ao seu status de ser um dos principais teólogos da libertação brasileiros, o ligam — não apenas em seu país, mas em toda a América Latina e em outras nações — a movimentos importantes que representam a esperança para os despossuídos.

No Brasil, ele não é apenas um militante da esquerda, mas um lutador de primeiro escalão, ao lado de Lula e de outros líderes que lutam pelo melhoramento humano, e é capaz de analisar criticamente aqueles que, em sua opinião, foram fatores negativos impregnados em alguns partidos e movimentos sociais que foram tirados do poder por meio de golpes de Estado — jurídicos e midiáticos — como os observados hoje.

Começo esta entrevista pelo Brasil, o país do Betto, onde está atrás das grades, ilegalmente, o líder mais popular e comprometido com o seu povo: Luiz Inácio Lula da Silva.

Brasil vive momentos decisivos: um processo eleitoral que pode perpetuar o golpe da direita, ou produzir a mudança que a maioria do povo quer, com Lula à frente. Será que o senhor pode prever um resultado neste contexto?

«É impossível prever um desenlace. Mesmo assim, não há garantia de que Lula possa se apresentar oficialmente como candidato. Em setembro teremos um mês de muitas surpresas, para bem (espero) ou para mal (temo)».

«Minha esperança é que Lula, aprovado por 37% dos eleitores, possa transferir seus votos para Fernando Haddad, inclusive se for impedido de concorrer. Em 21 de agosto, foi publicada uma pesquisa confirmando que 39% dos eleitores de Lula não pretendem votar em Haddad. Em resumo, a situação eleitoral brasileira ainda é muito nebulosa. Espero que Jair Bolsonaro (candidato da extrema direita) perca eleitores quando a propaganda eleitoral começar na TV, a partir de 30 de agosto».

Como explicar que o governo golpista permanece no poder, apesar do grande declínio nos programas sociais?

«Temer se manteve porque tem o apoio do Congresso, que comprou muitos deputados e senadores. Por outro lado, os governos do PT não se dedicaram, ao longo de seus 13 anos, à alfabetização política do povo. Os movimentos populares não foram fortalecidos. Assim, a mobilização contra este governo golpista não tem sido suficiente para derrubá-lo, apesar do fato de que essa mobilização conseguiu impedir a reforma da previdência social».

Considera que Lula e o PT podem ter concebido um possível Plano B, para lançá-lo na última etapa pré-eleitoral, se não pudesse ir como aspirante a presidente em outubro?

«Sim, o Plano B é de conhecimento de todos: Fernando Haddad, do PT, como candidato a presidente, e Manuela D’Ávila, do Partido Comunista do Brasil (PcdoB), como vice-presidente. O desafio é transferir os votos de Lula para eles».

Em sua opinião, quais foram os maiores erros da esquerda latino-americana, na última década, em países como o Brasil e a Argentina?

«No Brasil, que não tenham trabalhado melhorar a formação política do povo, fortalecer seus movimentos e promover a democratização dos meios de comunicação. Criamos uma nação de consumidores e não de protagonistas políticos. Muitos querem que Lula retorne ao poder novamente para ter o mesmo nível de consumo sob seu governo e o primeiro da Dilma».

«Na Argentina, tampouco foi resolvida a alfabetização política do povo. Um governo progressista não é mantido com base em slogans».

Qual a sua opinião sobre o que acontece no Equador e as denúncias feitas contra Rafael Correa?

«A situação no Equador é uma pena. Com essa esquerda não há necessidade da direita».

O senhor acha que há um ressurgimento da direita latino-americana?

«Sim, a esquerda ‘está entrando no armário’ e a direita está saindo. Os governos progressistas tomaram medidas para melhorar a situação social e reduzir a desigualdade, mas não elaboraram uma estratégia pedagógica de educação política do povo e sua consequente organização e mobilização. Em nome de um futuro melhor, a esquerda não deve cultivar no povo uma esperança de vida burguesa».

«Educar a subjetividade humana é tão importante quanto garantir às pessoas os bens materiais essenciais para uma vida decente. Como disse o contador de histórias cubano, Onelio Jorge Cardoso, saciar nas pessoas a fome de pão e de beleza».

Acha que as perdas causadas à esquerda da região serão reversíveis?

«Sim, acho que são reversíveis, a partir de que façamos uma autocrítica, reconhecendo nossos erros, tais como pensar que o governo é um violino, que se segura com a esquerda e é tocado com a direita. Além disso, a corrupção de alguns setores da esquerda enfraqueceu muito nossa credibilidade».

«Fidel me disse que um revolucionário pode perder tudo, até a vida, mas não pode perder sua moral».

Nesse contexto, dois grandes homens já não estão mais fisicamente: Chávez e Fidel. Como se lembra deles?

«Lembro-me de Chávez, que era o terceiro irmão de Fidel, depois de Raúl. Fidel e Chávez estavam muito sintonizados. Eles coincidiam na inteligência estratégica, na macrovisão da conjuntura, na forte empatia com as massas. São perdas irreparáveis».

(Traduzido da versão em espanhol)

2018-09-10T13:54:48+00:00

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