IPU: Pronunciamento em favor da Criação nos limites do nosso Brasil

O Conselho Coordenador da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU), em unidade com as igrejas cristãs que estão vigilantes na defesa de toda a Criação de Deus, vem reafirmar seu compromisso de fé diante dos sinais dos tempos, os quais apontam para a Criação que continua a gemer, em cativeiro, aguardando sua libertação (Rm 8.22); e se declarar que se sente desafiado pelo clamor dos povos que sofrem e pelas feridas da própria Criação.
 
Vemos, com vergonha, um processo de descuido com nosso patrimônio ambiental, visível na convergência dramática entre o sofrimento dos povos e os danos feitos ao que resta da Criação. Vemos os sinais dos tempos tornarem-se mais alarmantes diante do aquecimento global, da concentração de renda, do aumento do empobrecimento e da desregulamentação da proteção legal dos mais frágeis, na sociedade e no ambiente. Oramos a Deus e nos pronunciamos diante dos poderes humanos, sejam eles públicos ou particulares.
 
As causas subjacentes das ameaças à vida em larga em escala são, sobretudo, produto de um sistema econômico injusto defendido e protegido por poderes políticos e armados. A quem serve uma economia que permite o roubo das reservas do povo na Amazônia brasileira ou do Pantanal, a destruição e queima que produzem uma chuva cinzenta e ácida, que alcança os estados do Sul e do Sudeste, mesmo as queimadas acontecendo no Centro Oeste e Norte do Brasil?
 
Dizem que os escândalos pertenciam a governos anteriores, mas o que vemos salta aos olhos de toda a sociedade. Vivemos em um mundo de escândalos, que nega o chamado de Deus à vida para todos, com integridade. O cenário catastrófico, de intensa devastação da natureza no Brasil é um ato contra a nação brasileira, um ato que atenta contra Deus, porque destrói o equilíbrio da Criação Divina, sendo, portanto, insustentável!
 
A sordidez de uns poucos tem ofuscado a pujança de um país inteiro. Clamamos por uma economia sustentável: – Que dono de celeiro destrói o equilíbrio ambiental de ecossistemas que lhe mantem? Não é possível o Executivo Federal agir com tanta leniência diante das forças que destroem o patrimônio do povo brasileiro. Apontamos as seguintes realidades repugnantes para cada cidadão brasileiro e cada cidadã brasileira, e a nós cristãos e cristãs, daí, convocamos à ação contra esse crime contra a vida e a casa comum:
 
1. A devastação da natureza vem superando todos os recordes já registrados desde a Criação do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), tanto no que diz respeito à quantidade de focos de incêndio quanto ao número de áreas devastadas por queimadas de origem criminosa;
 
2. Simultaneamente a Floresta Amazônica, o Pantanal e o Cerrado têm sofrido aumentos significativos no número de queimadas. A Floresta Amazônica teve aumento de 49% em vista da média histórica (entre 2016 e 2019); as queimadas no Pantanal consumiram um território equivalente ao estado do Rio de Janeiro; do Cerrado, mais de 6,9 mil hectares foram incendiados e foram registradas 3.912 ocorrências de incêndios florestais, apenas no Distrito Federal.
 
3. Em vista desses desastres ecológicos, a atuação do Governo Federal tem sido, por um lado, de omissão em vista de seu dever de tomar iniciativas efetivas para a proteção do meio ambiente, e, por outro lado, de deliberado apoio aos grupos que, por interesses financeiros, empenham-se na devastação da natureza. Isso pode ser indicado:
 
3.1. pela declaração do Presidente da República, que afirmou no dia 5 de junho de 2020, em meio à grande crise ambiental ocorrente, que o Brasil é “país que mais preserva o meio ambiente do mundo”;
 
3.2. pela declaração do Ministro Ricardo de Aquino Salles, que, em reunião com os outros ministros e com Presidente da República, ocorrida no dia 22 de abril de 2020, afirmou que a ocasião da pandemia de COVID19 era oportunidade de “passar a boiada”, aludindo que enquanto a atenção da sociedade estava voltada para o enfrentamento do vírus, uma “baciada” de alterações nas regras de proteção ambiental e de área de agricultura poderiam ser realizadas.
 
3.3. pelo desmantelamento de instituições criadas para a preservação do meio ambiente como o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), reconhecido internacionalmente pelo uso da tecnologia avançada para mapeamento por satélites de focos de incêndio; e de órgãos de proteção ao meio ambiente que tiveram sua verba significativamente reduzida em pleno momento de crise ambiental, além de terem seus postos técnicos ocupados por profissionais sem formação adequada para lidar com as demandas, sobretudo militares, o que implica despreparo técnico no enfrentamento de situações que exigem qualificação específica.
 
3.4. pela negligência no enfrentamento das catástrofes ambientais, caracterizada pela já mencionada diminuição do investimento na preservação ambiental, mas também pela lentidão e fraca movimentação para enfrentamentos de situações que exigiriam medidas emergenciais e envio, articulação e atuação mais significativos das forças de defesa nacional.
 
3.5. pela reiterada tentativa de revogação de resoluções sobre temas ambientais (como a de nº 303, de 2002, que tratava da proteção das áreas de mangues), que, no caso, refere-se às mais antigas áreas protegidas do Brasil, a saber, desde 1577.
 
4. Assim, evidencia-se aos olhos de toda a sociedade o escuso apoio do Governo Executivo Federal a interesses econômicos estranhos ao interesse público, e que, por iniciativas reprováveis, colocam em risco a vida humana nativa e a sobrevivência de ricos ecossistemas, Criação de Deus e patrimônio de nosso povo.
 
5. Como igreja, comprometida com a sociedade e empenhada na defesa da Criação Divina, declaramos que:
 
5.1. A “vida”, quer humana quer das espécies animais e vegetais, é sopro de Deus (Sl 104.30), e tem sido destruída pela ganância humana, seja por meio do agronegócio, da mineração, ou da exploração do solo urbano; tudo isso com a leniência do Governo Executivo Federal;
 
5.2. A “terra”, que é possessão de Deus (Sl 24.1), concedida à mordomia humana, compartilhada como casa comum por seres humanos e outras formas de vida, tem sido violentamente tomada de seus habitantes, indígenas brasileiros – que, milenarmente, são os principais responsáveis pela manutenção de nosso ecossistema – e também das espécies coabitantes;
 
5.3. O sofrimento causado à Criação Divina pelo pecado aguarda a manifestação dos filhos de Deus (Rm 8.19), num processo histórico que já teve início em nossa era (chamado “já e ainda não”), cristãos e cristãs foram nomeados por Deus como “ministros [e ministras] da reconciliação” (II Co 5.20) e, por isso, Deus exige de cada um de nós o comprometimento com a causa da defesa da casa comum (oikoumene).
 
Portanto, o CC-IPU conclama seus eclesianos e eclesianas, os demais irmãos e irmãs em Cristo e cada cidadão e cidadã para, juntos conosco, denunciarem as mazelas do mal sobrescritas e se empenharem na defesa da casa comum e das formas de vida que coabitam conosco e a desenvolverem atitudes concretas para a preservação da Criação Divina.
 
Conselho Coordenador da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (CC-IPU 2020-2023)
2020-10-28T10:46:32-03:00

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